quarta-feira, 14 de novembro de 2012


Há uma linha que separa…

Há uma linha que separa uma tempestade no mar e um furo no casco. Tenho co
nversado com pessoas de todas as idades e feitios (gráficos e comportamentais), e chego à conclusão de que cada um acha, não só que a culpa é sua, por tudo de mal que acontece neste país, mas que é um caso isolado. Não somos.
Uns lamentam-se de lhes ter batido á porta o desemprego, com a indignação de quem recebe um comercial de telecomunicações fora de horas, argumentando que há muito que o seu nome não constava das páginas brancas. Mas afinal estava lá. Outros porque não têm férias há mil-e-não-sei-quantos dias, outros porque que não têm contratos há mil-e-não-sei-quantos dias, e outros que não sabem o que é receber há mil-e-não-sei-quantos dias, mesmo tendo trabalhado esses mil-e-não-sei-quantos dias.
Outros há, que gostariam de empreender e inovar, mas têm medo. Outros que gostariam de fazer greve, mas têm medo. Outros que têm medo de querer empreender e inovar, e que alguém faça greve. E outros ainda que fazem greve… porque não têm as condições ideais. E apenas por isso.
Depois existe o único tripulante do barco que todos os dias acorda de manhã e trabalha. Faz o seu trabalho o melhor que sabe, e toda a gente lhe diz que está muito bem feito. Não se queixa pois sabe que ninguém o vai compreender, nem ninguém o vai ajudar. Não faz nada arriscado, para que não o gozem. Não muda nada porque acredita que amanhã virão dias melhores, mas começa a perder a noção entre uma tempestade no mar e um furo no casco. Tempestade por tempestade, conforma-se aos poucos com os aumentos de tudo, dos impostos, das contribuições, da comida, da gasolina, da inflexibilidade, da insegurança, da exploração. Ninguém o teme. Cada vez tem menos tempo para limpar o convés, para segurar o leme, que fica cada vez mais pesado. Todos os dias se sente mais fraco e com mais dificuldade para içar as velas, rezando apenas para que quando elas estiverem abertas, o vento sopre de feição.
Há uma linha que separa o achar que se está no limite do esforço, e o estar no limite do esforço. Mas tenho a certeza que nada mais é uma linha, do que uma junção entre dois pontos.
Qualquer um diria demito-me. Eu desisto, contratem-me.
 


JDuraes, à tecla livre. 2012.11.13