quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

# nem o impossível é demais

Vi nestes dias uma campanha publicitária, de uma marca de prestígio, que em Portugal seria uma difícil confrontação, em que a porta de uma loja foi retirada e substituída por duas portas. Uma dizia "normal", a outra dizia "bonita/o". E nisto dezenas de pessoas foram seguidas na sua escolha, tão simples como esquerda e direita, de portas com rótulo. Dezenas delas passaram-se por "normal", quando por sua escolha poderiam ter passado por "bonita/o"s.
Outras porém passaram-se por bonitas, uma excepção, uma minoria, que acreditou no seu potencial, que ousou qualificar-se na simples passagem. Que se arrogou do poder que sente, intocável a quem quiser julgar, ou impedir, pois já haviam entrado. Ninguém os julgaria assim senão eles mesmos. Ou talvez ninguém fosse capaz de os julgar, senão eles mesmos.
Aos que se passaram por normal, também esse juízo sobre si mesmos é intocável. Levamos da vida essa vantagem, a de nos podermos inserir onde quisermos. A de nos julgarmos e nos correspondermos.
Não é demais lembrar que por mais especial que fosse, ao passar-me por normal, dou ao outros o direito de me verem assim. Minorias também, ao verem-se normais e acharem que os devem ter por bonitos, condenam o seu bem estar ao impossível. Dão asas à expectativa e à frustração, ao não estar bem em lado nenhum. Cortam o investimento dos outros, pois não investem em si, e nunca é demais investir.
Admito uma forma legítima de enriquecimento sem causa, o enriquecimento pessoal, da memória, da vontade, da beleza. Nunca é demais enriquecer.
Ninguém disse que seria fácil, ninguém disse que haveria ordem, ninguém disse que seria ontem. Mas também ninguém disse que seria impossível.
De tanto se passar por "normal", dia após dia, entrar pela esquerda, viu que o problema não era dos outros, como achava. Pensou em si por um momento, e viu uma série de belezas que o medo de falhar não tinham mostrado até ali.
Decidiu que não mais se passaria por "normal", e enfrentou tudo aquilo que até então tinha sido demais. Adversidades demais, azar demais, expectativa demais, medo demais, pressão demais. E ao olhar para trás não se sentiu normal. Sentiu-se especial, especial como até então, achava que, para si, seria demais.
E foi lá.
Em vez de duas portas, havia apenas uma, sem rótulo, sem expectativa, sem pressão.
Então, rotulou a porta.
E desde esse dia, passou-se por "especial", por "incansável", por "invencível". E em nenhum dia foi demais.
Nem o impossível é demais.
JDurães, à tecla livre, 2015.04.18.

# partidos

A minha mãe chega à loja das bolachas, que tem as bolachas mais bem desenhadas e perfeitas que uma mente gulosa pode sonhar. Entra humilde, olha para todas, e diz: "tem partidos?", ao que a senhora de avental de mãe dotada de outros tempos, buscando as prateleiras recônditas da loja, escondidas do olhar do comum comprador que não compreende todas as formas e feitios, lhe responde com o brilho de quem viu o sol raiar pela primeira vez desde o inverno, e a satisfação de quem não vai vender, mas dar afectos: "tenho pois!"
Partidos, estão diversos biscoitos, de todo o espólio do requintado mostruário, defeituosos, aos bocados, dentro de um saco de kilo previamente pesado e selado, sem qualquer possibilidade de escolha. Todos têm um defeito, ou vários, mas todos conservam a sua essência, o sabor que os distingue, a delícia, o carinho na confecção. Está tudo lá, mas aos bocados.
Nós trazêmo-los para casa, e, como que inconscientemente, vamos escolhendo os pedaços que mais gostamos, vai se o saco a meio, e já não nos lembramos da mais bonita, pegamos outro pedaço e essa é a mais bonita. Aceitamos os seus defeitos, e vemos só o lado bom, o que nos proporciona o prazer único, a satisfação, o instante.
Ao ponto de as bolachas perfeitas, iguais em natureza, feitio e tamanho, nem atenção nos merecerem.
Chegamos ao fim, com um saco de quase migalhas, cantos e bicos de biscoito-que-nao-tinha-que-ser-perfeito, e desejamos, que aqueles nicos de sabor e satisfação, nunca se acabem.
Não há mal em quebrar, não há mal em não ser perfeito, não há mal em não estarmos sempre inteiros, contando que consigamos sempre fazer valer o instante.
JDurães à tecla livre, 2014.11.12.

# a cepa torta e a conformação e as naus

A cepa, torta em jeito de substantivo, mais que de adjectivo, será talvez o arbusto mais desinteressante, feio e desconhecido, em que se possa pensar. Por ser pequeno, por ser rugoso, por ter o tronco deformado, nos padrões "gestálticos" da boa forma, e por quase não mudar de configuração ao longo da vida, não atrai simpatias, ou antipatias. Não chega a relevar se é útil. Ninguém a quer, ninguém a ama, ninguém pensa nela.
Ficou-nos da mitologia o sentido de transpor as suas características para as pessoas, em jeito de não passas da cepa torta, sem muitas vezes pensar o peso das palavras, o seu sentido, e o seu alcance.
Importuna-se este povo por tudo, mas não se pugna por nada. Nesta medida o português é uma coisa jeitosinha de se ter por perto, pois possui a habilidade incomum de se conformar com tudo, de ostentar golpes de estado como revoluções, e de se alienar ao mínimo sinal de problemático, como se já nem valesse a pena correr atrás do americano, porque já arrancou há segundos.
Ajudo, mas hoje não, que estou cansado, revoltava-me, não fossem estas horas e estivéssemos noutro lado, sou sempre o maior, até ver algo mais importante. Eu até ia lá, mas não me quero chatear.
Se um em cada mil saltar o muro, eu quero ser esse. Se um em cada cem chorar, eu posso ser esse. Quero plagiar. O exemplo bom. Quero destruir. Os meus preconceitos. Quero parasitar. A determinação e a coragem de quem quer chegar mais além. Não seguimos sempre acompanhados mas também nunca sozinhos. A forma é constatável, o feitio, molda-se.
Raios se um dia não acordamos de manhã, e estamos iguais, em carácter e objectivos, em responsabilidade e medidas, peso volume e quantidade, à última vez que reparamos em nós. Nem uma imagem de nós nos faria lembrar, ou, por muito realista, tirar-nos a sombra de quem são estes. Nesse dia podem comparar-nos, nesse dia podem dizer-nos, que não passaremos da cepa torta.
Até lá, é trabalhar com o que se tem, haja naus, haja paus com bicos, haja visão e vontade, haja o melhor de nós em tudo que fazemos.
E nada será como ontem.
Jduraes à tecla livre, 2014.10.03.

# 07-07-ED

Dia 07-07 foi a última vez que estivemos juntos. Tivemos um dia feliz, sentimo-nos um ao outro, sentimos que ficávamos por ali, mas não o que nos unia. Tivemos uma noite calma, despedimo-nos sem drama, e ainda o ouvi durante a noite. A uma semana de ter perdido o amor da minha vida, ainda me persegue toda uma década de cumplicidade e companheirismo, que pensei irem embora com um simples voltar de costas. Mas não aconteceu. Não vai acontecer.
Chego á conclusão que o que dói não é o amor, mas a memória. Não é o sentimento, mas a história. O pensarmos na parte positiva do que fomos um para o outro, no que demos de nós, e no que recebemos de volta. No conforto de estarmos juntos em silêncio.
Trai-nos a memória, porque devíamos pensar apenas nas vezes em que faltou água destilada no electrólito, nas vezes em que a direcção era pesada e naquelas em que não conseguíamos abrir o vidro e respirar. O problema é que ainda que a mecânica pudesse falhar, química houve sempre.
E é isso que nos prende, e nos arrasta a memória.
É isso que não nos deixa largar o que já não volta.
A memória é nossa.
Desculpa, mas não te vou largar. Não te consigo esquecer.
JDurães à tecla livre, 2014.07.14

#2relógios

2 relógios, 2 gps.... Sim brinquei com triângulos quando era pequena, o que pressuponho, não faz de mim illuminatti. Um dos relógios adianta-se, ou o outro atrasa-se. Assim é a vida. Nunca saberei qual deles está certo. Sigo caminho por instinto, porque nada me guia melhor do que eu própria. O gps lembra-me que o mundo é pequeno, e que damos as voltas que forem precisas para nos encontrar a nós mesmos. Nobreza e coragem. Os 2 relógios servem para fotografar as crianças, "olha, 2 relógios!", nunca falhou. 
JDurães à tecla livre, 2014.05.06.

# O contrato

O casamento é um contrato.
E muitas vezes pensei o seu significado do ponto de vista jurídico. No sinalagma, baseado nos deveres de respeito, fidelidade, cooperação, coabitação e assistência, não necessariamente por esta ordem, e nos efeitos, na instituição de um único e universal herdeiro. Dei por mim, a comparar regimes de bens e possibilidades, num clausulado que em muito ultrapassa o sim, aceito.
Visto assim, parece que o encanto, a paixão, o desejo, viram a luz apagada, sem que se tenha acendido. Parece que as vontades são apenas declarações de vontade.
E são.
O que une as pessoas não é o encanto, esse dissolve-se em rotina. A paixão, há-de ferver em ira, em ironia e raiva, ou em abandono e paz. O desejo, há-de passar em sinal aberto, assim que o corpo deixe de responder. Passará nisto tanto tempo, que somos arrastados pela vida a uma co-dependente amizade empática de projectos comuns. Seremos nisto tão realizados, que estabelecemos verdadeiras alianças, tratados de paz, para a vida. Coabitamos com o inimigo, conhecemos as suas forças e fraquezas, e respeitamos cada espaço da sua existência, e partilhamos cada traço da nossa alma. Vemo-nos num espelho imperfeito, que reflete defeitos. Mas reconhecemos que num espelho limpo não seríamos nós.
O casamento é esta vontade que duas pessoas revelam, em câmara escura, quais sais de prata, de se darem uma à outra. Uma doação bilateral. O compromisso, não vem com a aceitação do outro. Não nos comprometemos com o outro, mas conosco.
Hoje penso que o casamento não é um contrato, são dois contratos, em jeito de negócio consigo mesmo, em que os efeitos se produzem à margem da sua validade jurídica. Ratifica-se tacitamente, ainda que este instituto já se encontre há muito extinto da legislação vigente.
Continuo sem saber se andam os homens a reboque das leis, ou se andam as leis a reboque dos homens...

Jduraes à tecla livre, 2014.01.18.