quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

# cansada e incansável

Estamos sempre muito cansados para dar valor àquilo que temos sempre. Procuramos o novo, o indefinido, desfazemos-nos em esforços para sair do lugar em que estamos, encontrar melhor pouso ou melhor vento que nos traga a fortuna e a sorte. Somos incansáveis no perseguir aquilo que achamos que queremos, mas muito fracos em conquistar o que está sempre presente.
Tratamos mal a vida como se lhe fossemos superiores, como se a saúde fosse inesgotável, e vemos as nossas maiores alegrias como entrave à nossa progressão. Só porque estão sempre lá.
Damos importância a mais ao que nos desgasta, e importância a menos ao que nos conforta.
Categorizamos tudo em padrões de pseudo-felicidade socialmente correcta, nos zeros e uns da estabilidade emocional.
Buscamos o inédito, sonhamos o inovador, o sair da zona de conforto e viver o desconhecido na rédea da cepa torta, que havemos de endireitar.
Cansados, apoiamo-nos na mesma cepa. E estava lá.
Rio-me do esforço infinito de buscar a instabilidade de coisa nenhuma, para conseguir afinal aquilo que seria uma medalha de ouro no pódio da estabilidade, em tom de de desejo primeiro e último.
Vou ser emocionalmente correcta, e rir-me de mim mesma também, mas lembro-me que já me haviam falado sobre isto: "cuidado com o que desejas, porque podes conseguir".

Boa noite,
Jduraes à tecla livre 2013.12.11

# O homem que pede na ponte II

Ás vezes dou, ás vezes não dou. É conforme pode ser, pela minha condição e a minha vontade, naquele dia. Independentemente do que posso dar, faço questão de oferecer uma justificação, em tom de conforto, de um aquecedor da alma, de que os dias de dezembro expressam a falta. Não deixo de receber em troca os desejos de uma santa viagem, de muita saúde, para mim e para os meus, um saco cheio de esperanças de que estejamos todos bem, pois o nada que ele dá, dá sempre.

E não o vejo perder nada com isso, antes ganhar, em tempos em que da vida contamos com a falta de reconhecimento, com o não, com as reservas no dar sem receber, no confiar sem saber.

Queremos mais confiança, mas não procuramos o confiável, nem nos mostramos confiáveis. Fiável é algo que apresenta uma menor quantidade de erros por número de vezes que um evento se produz, e não aquilo que se apresenta diante de nós como desejávamos que fosse.

Queremos mais reconhecimento, mas não reconhecemos o valor dos momentos insignificantes, das atitudes condicionadas, por aquilo que não somos e talvez não cheguemos a compreender. Não nos fazemos dignos, porque não queremos dar demais.

Como se o passado relevasse, á escala da terra, ou nos livrasse da queda, do erro, do juízo mal feito. Como se o futuro tivesse volante ou pedais.

Para o homem que pede na ponte, não há futuro, há futuros.
E quando na vida me dizem para não dar demais, a minha resposta é sempre a mesma: ás vezes dou, ás vezes não dou.

Jduraes à tecla livre, 2013.12.08

# Reijin 11-31


Ela pensava que a vida seria toda uma. Que o tempo nos unisse, nunca nos separasse. Pensava que o por do sol seria para sempre, e que todos os fins de tarde íamos aprender coisas novas, e esperar que escureça, sem pressa. Esperava ver as estrelas que não falam, nem precisam, que não mentem, nem estremecem, não assustam, nem desaparecem... e sabe que lá estão, ou suspeita.
Ela cresceu a pensar que não cairia da árvore, que a mãe nunca seria frágil, e que a música cigana nunca passaria de moda. E houve tempos em que ela queria que o bronzeado nunca saísse do corpo salgado, que o Agosto mancha de saudades, tantas que nem se lembrava da escola ou do resto do ano. Nunca soube se o azul é mesmo azul, ou se nós é que lhe chamamos assim, e todos concordam.
Caiu da árvore, e depois caiu a árvore, sem que tivesse a certeza se as estrelas estão mesmo lá. Viu nascer o sol, cada vez menos salgado, e todos os anos lhe doía mais a ferida de perder a árvore, do que a cicatriz de ter caído.
Todos os anos, estava mais longe o som do por do sol, o frágil do bronzeado, a moda do aprender. Mas ela não deixou de suspeitar.
Todos sabemos que o mundo estava todo errado e ela certa, mas a verdade é que há dias, em que por momentos, ao fim da tarde, consigo vê-la brincar. Consigo ouvir o mar cor-de-laranja. E acredito, que apesar de ela não ter a certeza se eu estou aqui, de ela não saber se os outros mentem, ou apenas não dizem que discordam, há coisas que nunca vão mudar.
Tenho a certeza que ela vai sempre tentar subir a árvore. Sei que ela não quer morrer sem cicatrizes. E sei que as estrelas estão sempre lá. Ou melhor, vou suspeitando.

JDuraes, á tecla livre, 2013.04.22.

# A jogar às escondidas


Há alturas na vida em que as pessoas desistem. Os velhinhos, acamados, internados, no domínio da consciência de que são os últimos na cadeia de intimidade, e na certeza de que, se já foi toda a gente, serão a seguir, por exclusão de partes, de possibilidades, e de fantasias, desistem.
Os trabalhadores, empenhados, desprendidos, no domínio da noção de que o esforço não é directamente proporcional ao reconhecimento, nem indirectamente proporcional à carga fiscal, e na certeza de que, deixada ao acaso, a vida vai sempre no mesmo sentido, de mal a pior, por exclusão de possibilidades, e de fantasias, desistem.
Quem pode condenar?
Quando jogamos às escondidas e não somos encontrados, há sempre um momento em que ponderamos, se estaremos mesmo bem escondidos, e se somos mesmo eficientes nas escolhas que fizemos, ou, se pelo contrário, já ninguém nos procura e o jogo terminou, e até já estarão a jogar outro jogo, ou pior, se ninguém se lembra que também estávamos a jogar, deixando, simplesmente, de nos procurar.
E quem é capaz de condenar?
Se fazemos este juízo enquanto crianças, sem certas estruturas cognitivas, será estranho fazê-lo enquanto adultos?
Desistir é tão relativo como existir. Percebe-se melhor em grego.
Mas para já, vamos pensando apenas em esconder-nos o melhor que sabemos, não vá o jogo continuar, e estarmos a ganhar.

Jduraes, à tecla livre, 2013.06.25

# gps


Conduzo, de Oliveira de Azeméis, rumo a S. João, sem navegador. Mas não sei o caminho.
Da primeira vez fui lá guiada. Não me lembro de nada. De segunda, segui as orientações, com os olhos e o pensamento presos ao medo de navegar. Com o habito, fui lá ter e não sei como. Sei que o percurso vai se fazendo, sem medos, mas à cautela. Curva a curva tomo posição.
Assim é perante a vida, não admito nem permito que o medo de navegar me impeça de ir andando. Não deixo que o desconhecido, me faça refém do passado. Não sei o caminho, nem tenho mapa.
Curva a curva, tomo posição.

Jduraes à tecla livre, 2013.07.05

# o homem que pede na ponte


O homem que pede na ponte, não tem nada a perder. Não tem nada. Não tem dramas, não tem carro, não tem horário. O homem que pede na ponte faz amigos todos os dias, e não conhece nenhum. Abençoa quem vai me quem passa a troco de um aceno, de cinquenta cêntimos que valem um sorriso, de um cigarro que vale tudo de bom que há no mundo.
Quem por ele passa sente a boa vontade, presente no olhar de uma criança que não sabe o que é ser engenheiro, que não sabe o que são filtros e óleo, que não sabe o que é uma declaração rectificativa. O homem que pede na ponte sabe o que mais ninguém sabe.
Quem já perdeu tudo, ganha liberdade. Nunca se perde tudo. Quando o caminho se apaga, cada árvore é um sinal. Há sempre caminho.
Quando passo pelo homem que pede na ponte, dou-lhe cinquenta cêntimos, ou aceno. Para ele é igual. Trata-me por cara amiga, e o dia corre-me bem.
Ele tem tantas mais limitações que eu, e é tão mais feliz, porque não espera nada da vida. Trata bem quem o trata bem, e tudo mais lhe é indiferente.
Para ele hoje é sempre o dia. Para mim é um dia, porque presumo sempre que há mais.
Hoje passei por lá e não o vi, senti a falta da sua presença auspiciosa, e acusei uma certa preocupação. Não sei porquê. O homem que pede na ponte não tem nome para mim, não sei onde mora, se mora, não tem essência, só existência. Talvez seja ao contrário de deus.
O nada que ele é nunca vai e nunca passa. E nós?

Jduraes, á tecla livre, 2013.08.06.

#



Fecho os olhos, e ainda assim parece que vejo turvas as memórias prospectivas de uma agenda atribulada e de um telefone com a teimosia de um farol. Deve ser a alma.
Vozes do que não disse, sons do que não ouvi, ecos do que ainda está para acontecer, me deixam enternecida com o termos em nós isto tudo.
Disse-me um dia alguém, a quem devo parte do que sou, e a quem tenho pena de não poder chamar família: "filha, a cabeça nunca pára."
Mas o corpo pára.
O sol levanta-se cedo demais para o que fazemos com um dia inteiro. Ouço e calo, enfrento e desgasto, espero dar a volta ao vento antes que os cabos se partam, deito-me sem voz, como se não fosse dizer nada. O alento de amanhã ser outro dia, deve ser a alma.

Boa noite,
Jduraes, à tecla livre 2013.10.17.

# a outra esquerda



Aos que ouvem. Aos que compreendem sem questionar. Aos que respeitam.

Li um dia que a esfera de liberdade de um ser termina quando começa a de outro. Diria que existe uma relação de proporcionalidade inversa. Há sentimentos que funcionam ao contrário, como que numa relação simbiótica de mais com mais dá mais, porque apenas se somam e se multiplicam. Outros quantos se dividem, numa óptica de partilha sinergética. Escusado seria perder tempo com exemplos, pois os nossos olhares já todos se desviaram para baixo, e todos sabemos do que falamos.

A vida não é tão linear que o tempo possa não ser curvo, que haja só quatro cardinais, ou que a direita e a esquerda, não sejam, em qualquer contexto, as duas metades mais próximas de uma mesma esfera.

Porquê pensá-la assim?

Perdemos o espanto quando deixamos de ter direitos, e passamos a ter responsabilidades. Quando nos davam, e agora nos tiram. Quando queríamos chegar aos 18, e agora não queremos passar dos 30. 8 horas são 8 horas. Esteja o mundo todo errado, mas há sempre alguém com mais paciência. Hoje não encontro ninguém.

Não tivesse o polo norte magnético um desvio de 9 graus em relação ao geográfico, não sobrassem 6 horas em cada ano, não fossem 3/3 uma dízima infinita periódica de 0,(9), em vez da convencional unidade, eu diria que os homens estão errados, que a tecnologia maior está na natureza, e que em vez de as leis servirem os homens, são os homens que servem as leis.

Com uma réstia de liberdade, que não esbarra com ninguém, rio-me com um espanto quebrado, e a malícia singela de quem sente o que pensa, como aos 6 anos, quando me engano no trânsito, e alguém me adverte: " não, a outra esquerda!"

Obrigada.

Jduraes à tecla livre, 2013.09.23