terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Um Segundo Mais Feliz

Todos os dias troco um dia da minha vida por uma noite de sono. Tudo o que faço é importante.Ás vezes penso que o tempo é a moeda da existência... troco 10 minutos da minha vida por uma caneca de chá e um pão com queijo, 20 por um pouco de informação, 3 por um sorriso pepsodent... ás vezes pedem-me ajuda e digo que não tenho tempo, como quem acena uma nota de mil por não ter trocado. Sou egoísta, é um facto, mas a verdade é que estou a dar parte de mim, da minha existência, por uma causa que não me pertence. E será isso justo? Claro que ninguém se importa de dar uma tarde inteira de si por um banho de mar... mas quantos o fariam espontaneamente por um ataque epiléptico? Quantos o fariam por uma expectativa?
A verdade é que, bem ou mal gerido, o nosso tempo é escasso, e cada vez nos resta menos troco. Longe vai o tempo em que, como crianças, brincávamos com moedas pequenas!, longe vai o tempo em que nada durava mais que 10 minutos, em que não se faziam projectos a longo prazo, e em que ninguém pensava no que seria quando crescesse... depois de adultos já só pensamos nas notas, e nos empreendimentos de uma vida inteira... nada nos realiza se for pequeno, nada nos atrai se for grande demais. A vida toda chega perfeitamente.
Qual é o problema? É que se algo nos falha, ficamos (geralmente na velhice) com a sensação de ter perdido o porta-moedas e, azar dos azares, com o dinheiro todo lá dentro... e como se não bastasse, na maior parte das vezes não temos já tempo para procurá-lo... e ficamos tristes. Fracassados.
Chego todos os dias á conclusão que o melhor será mesmo andar com as moedas pequenas e gasta-las á vontade, esquecendo que temos as notas... inevitavelmente veremos um dia que até as notas foram gastas, mas não todas numa coisa grande e inútil, mas em muitas pequenas coisas que fizeram a nossa felicidade ao longo da vida. O tempo corre quer queiramos, quer não. Passa, ultrapassa-nos. Não depende de nós.
Cabe-nos a escolha. Seremos todos velhos pobres e frustrados de desperdício... ou eternas crianças brincantes, para quem um copo de água é a alegria de uma tarde. Deitaremos ao vento as notas que não pesam... ou passaremos a vida a trocar pequenas moedas por grandes momentos? Cada um sabe de si.
De que vale perguntar-se o que demorará menos tempo, o que durará mais, ou o que será mais efémero? Já dizia o Poeta que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”... mas de que vale a grandeza da alma, perante a pequenez dos limites, dos sentidos, da utopia? Ao pensar em tudo isto, troco freneticamente cerca de 1 segundo por cada caracter que deposito nesta página já não tão em branco como havia sido momentos antes... terá valido a pena? Pelo menos não perdi o porta-moedas! Não agora, que ainda me julgo uma criança capaz de tudo, com a vida toda pela frente. Não agora que nada me mete medo porque nada é realmente importante. Não agora que penso ainda que o último dia nunca chegará....
Eu tenho a certeza que sou jovem enquanto me sentir imortal. E hoje sei que sou imortal.

Joana Durães


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