quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

# A jogar às escondidas


Há alturas na vida em que as pessoas desistem. Os velhinhos, acamados, internados, no domínio da consciência de que são os últimos na cadeia de intimidade, e na certeza de que, se já foi toda a gente, serão a seguir, por exclusão de partes, de possibilidades, e de fantasias, desistem.
Os trabalhadores, empenhados, desprendidos, no domínio da noção de que o esforço não é directamente proporcional ao reconhecimento, nem indirectamente proporcional à carga fiscal, e na certeza de que, deixada ao acaso, a vida vai sempre no mesmo sentido, de mal a pior, por exclusão de possibilidades, e de fantasias, desistem.
Quem pode condenar?
Quando jogamos às escondidas e não somos encontrados, há sempre um momento em que ponderamos, se estaremos mesmo bem escondidos, e se somos mesmo eficientes nas escolhas que fizemos, ou, se pelo contrário, já ninguém nos procura e o jogo terminou, e até já estarão a jogar outro jogo, ou pior, se ninguém se lembra que também estávamos a jogar, deixando, simplesmente, de nos procurar.
E quem é capaz de condenar?
Se fazemos este juízo enquanto crianças, sem certas estruturas cognitivas, será estranho fazê-lo enquanto adultos?
Desistir é tão relativo como existir. Percebe-se melhor em grego.
Mas para já, vamos pensando apenas em esconder-nos o melhor que sabemos, não vá o jogo continuar, e estarmos a ganhar.

Jduraes, à tecla livre, 2013.06.25

Sem comentários:

Enviar um comentário