quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
# o homem que pede na ponte
O homem que pede na ponte, não tem nada a perder. Não tem nada. Não tem dramas, não tem carro, não tem horário. O homem que pede na ponte faz amigos todos os dias, e não conhece nenhum. Abençoa quem vai me quem passa a troco de um aceno, de cinquenta cêntimos que valem um sorriso, de um cigarro que vale tudo de bom que há no mundo.
Quem por ele passa sente a boa vontade, presente no olhar de uma criança que não sabe o que é ser engenheiro, que não sabe o que são filtros e óleo, que não sabe o que é uma declaração rectificativa. O homem que pede na ponte sabe o que mais ninguém sabe.
Quem já perdeu tudo, ganha liberdade. Nunca se perde tudo. Quando o caminho se apaga, cada árvore é um sinal. Há sempre caminho.
Quando passo pelo homem que pede na ponte, dou-lhe cinquenta cêntimos, ou aceno. Para ele é igual. Trata-me por cara amiga, e o dia corre-me bem.
Ele tem tantas mais limitações que eu, e é tão mais feliz, porque não espera nada da vida. Trata bem quem o trata bem, e tudo mais lhe é indiferente.
Para ele hoje é sempre o dia. Para mim é um dia, porque presumo sempre que há mais.
Hoje passei por lá e não o vi, senti a falta da sua presença auspiciosa, e acusei uma certa preocupação. Não sei porquê. O homem que pede na ponte não tem nome para mim, não sei onde mora, se mora, não tem essência, só existência. Talvez seja ao contrário de deus.
O nada que ele é nunca vai e nunca passa. E nós?
Jduraes, á tecla livre, 2013.08.06.
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