Vi nestes dias uma campanha publicitária, de uma marca de prestígio, que em Portugal seria uma difícil confrontação, em que a porta de uma loja foi retirada e substituída por duas portas. Uma dizia "normal", a outra dizia "bonita/o". E nisto dezenas de pessoas foram seguidas na sua escolha, tão simples como esquerda e direita, de portas com rótulo. Dezenas delas passaram-se por "normal", quando por sua escolha poderiam ter passado por "bonita/o"s.
Outras porém passaram-se por bonitas, uma excepção, uma minoria, que acreditou no seu potencial, que ousou qualificar-se na simples passagem. Que se arrogou do poder que sente, intocável a quem quiser julgar, ou impedir, pois já haviam entrado. Ninguém os julgaria assim senão eles mesmos. Ou talvez ninguém fosse capaz de os julgar, senão eles mesmos.
Aos que se passaram por normal, também esse juízo sobre si mesmos é intocável. Levamos da vida essa vantagem, a de nos podermos inserir onde quisermos. A de nos julgarmos e nos correspondermos.
Não é demais lembrar que por mais especial que fosse, ao passar-me por normal, dou ao outros o direito de me verem assim. Minorias também, ao verem-se normais e acharem que os devem ter por bonitos, condenam o seu bem estar ao impossível. Dão asas à expectativa e à frustração, ao não estar bem em lado nenhum. Cortam o investimento dos outros, pois não investem em si, e nunca é demais investir.
Admito uma forma legítima de enriquecimento sem causa, o enriquecimento pessoal, da memória, da vontade, da beleza. Nunca é demais enriquecer.
Ninguém disse que seria fácil, ninguém disse que haveria ordem, ninguém disse que seria ontem. Mas também ninguém disse que seria impossível.
De tanto se passar por "normal", dia após dia, entrar pela esquerda, viu que o problema não era dos outros, como achava. Pensou em si por um momento, e viu uma série de belezas que o medo de falhar não tinham mostrado até ali.
Decidiu que não mais se passaria por "normal", e enfrentou tudo aquilo que até então tinha sido demais. Adversidades demais, azar demais, expectativa demais, medo demais, pressão demais. E ao olhar para trás não se sentiu normal. Sentiu-se especial, especial como até então, achava que, para si, seria demais.
E foi lá.
Em vez de duas portas, havia apenas uma, sem rótulo, sem expectativa, sem pressão.
Então, rotulou a porta.
E desde esse dia, passou-se por "especial", por "incansável", por "invencível". E em nenhum dia foi demais.
Nem o impossível é demais.
Outras porém passaram-se por bonitas, uma excepção, uma minoria, que acreditou no seu potencial, que ousou qualificar-se na simples passagem. Que se arrogou do poder que sente, intocável a quem quiser julgar, ou impedir, pois já haviam entrado. Ninguém os julgaria assim senão eles mesmos. Ou talvez ninguém fosse capaz de os julgar, senão eles mesmos.
Aos que se passaram por normal, também esse juízo sobre si mesmos é intocável. Levamos da vida essa vantagem, a de nos podermos inserir onde quisermos. A de nos julgarmos e nos correspondermos.
Não é demais lembrar que por mais especial que fosse, ao passar-me por normal, dou ao outros o direito de me verem assim. Minorias também, ao verem-se normais e acharem que os devem ter por bonitos, condenam o seu bem estar ao impossível. Dão asas à expectativa e à frustração, ao não estar bem em lado nenhum. Cortam o investimento dos outros, pois não investem em si, e nunca é demais investir.
Admito uma forma legítima de enriquecimento sem causa, o enriquecimento pessoal, da memória, da vontade, da beleza. Nunca é demais enriquecer.
Ninguém disse que seria fácil, ninguém disse que haveria ordem, ninguém disse que seria ontem. Mas também ninguém disse que seria impossível.
De tanto se passar por "normal", dia após dia, entrar pela esquerda, viu que o problema não era dos outros, como achava. Pensou em si por um momento, e viu uma série de belezas que o medo de falhar não tinham mostrado até ali.
Decidiu que não mais se passaria por "normal", e enfrentou tudo aquilo que até então tinha sido demais. Adversidades demais, azar demais, expectativa demais, medo demais, pressão demais. E ao olhar para trás não se sentiu normal. Sentiu-se especial, especial como até então, achava que, para si, seria demais.
E foi lá.
Em vez de duas portas, havia apenas uma, sem rótulo, sem expectativa, sem pressão.
Então, rotulou a porta.
E desde esse dia, passou-se por "especial", por "incansável", por "invencível". E em nenhum dia foi demais.
Nem o impossível é demais.
JDurães, à tecla livre, 2015.04.18.
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