quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

# partidos

A minha mãe chega à loja das bolachas, que tem as bolachas mais bem desenhadas e perfeitas que uma mente gulosa pode sonhar. Entra humilde, olha para todas, e diz: "tem partidos?", ao que a senhora de avental de mãe dotada de outros tempos, buscando as prateleiras recônditas da loja, escondidas do olhar do comum comprador que não compreende todas as formas e feitios, lhe responde com o brilho de quem viu o sol raiar pela primeira vez desde o inverno, e a satisfação de quem não vai vender, mas dar afectos: "tenho pois!"
Partidos, estão diversos biscoitos, de todo o espólio do requintado mostruário, defeituosos, aos bocados, dentro de um saco de kilo previamente pesado e selado, sem qualquer possibilidade de escolha. Todos têm um defeito, ou vários, mas todos conservam a sua essência, o sabor que os distingue, a delícia, o carinho na confecção. Está tudo lá, mas aos bocados.
Nós trazêmo-los para casa, e, como que inconscientemente, vamos escolhendo os pedaços que mais gostamos, vai se o saco a meio, e já não nos lembramos da mais bonita, pegamos outro pedaço e essa é a mais bonita. Aceitamos os seus defeitos, e vemos só o lado bom, o que nos proporciona o prazer único, a satisfação, o instante.
Ao ponto de as bolachas perfeitas, iguais em natureza, feitio e tamanho, nem atenção nos merecerem.
Chegamos ao fim, com um saco de quase migalhas, cantos e bicos de biscoito-que-nao-tinha-que-ser-perfeito, e desejamos, que aqueles nicos de sabor e satisfação, nunca se acabem.
Não há mal em quebrar, não há mal em não ser perfeito, não há mal em não estarmos sempre inteiros, contando que consigamos sempre fazer valer o instante.
JDurães à tecla livre, 2014.11.12.

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