terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Será assim tão relevante ser Homem ou Mulher?

Será assim tão relevante ser Homem ou Mulher?
Se, por um lado, por sexo entendemos o conjunto de características físicas e funcionais que distinguem o homem da mulher, por outro, entendemos o género como o conjunto de características sociais, os papeis e estatutos, e tudo aquilo quanto nos faz ser feminino e masculino. Ser mulher ou ser homem varia assim conforme a sociedade, local e tempo em que vivemos, a cultura das nossas gentes, e como tal, pode ser construído, aprendido, e alterado. Já o sexo, sendo genético, é-nos determinado quando nascemos.
Os estereótipos de género (características e papeis que atribuímos a cada um dos sexos) determinam que mulheres e homens sejam vistos de forma diferente, quer ao nível da família, como ao nível do trabalho e da sociedade.
Homens e Mulheres nem sempre foram vistos como iguais
Desde sempre nos habituamos a que as mulheres são quem cuida dos filhos, da casa, dos doentes e dos idosos. Por sua vez os homens foram sempre vistos como os trabalhadores, que sustentam e protegem a família. O valor deste trabalho, exterior e visível, sempre teve o reconhecimento da sociedade, ao contrário do trabalho doméstico, menos visível, e muito pouco reconhecido. O poder, víamo-lo distribuído de forma pouco igualitária: o marido era o chefe da família, existia o poder marital e o poder paternal (em toda a legislação anterior a 1974), sendo que as mulheres possuíam mais deveres do que direitos.
Hoje em dia, cerca de 30 anos depois de ter sido reconhecida a plena igualdade entre os sexos, vivemos numa realidade muito diferente.
As mulheres estão no mercado de trabalho a par com os homens e contribuem em larga medida para o sustento de suas famílias. Ao mesmo tempo e de um modo geral, continuam a dar apoio à família, a providenciar a higiene e o governo do lar. Mostram-se por isso menos disponíveis para prestar trabalho suplementar, ou trabalhar longe do seu domicílio. A maternidade, apesar de não ser incapacitante na maioria dos casos, é ostensiva, e o facto de no primeiro ano, o recém-nascido ser muito dependente da mãe, faz com que muitas empresas ainda vejam na contratação de mulheres um problema.
Apesar de hoje em dia cerca de 60% dos licenciados serem mulheres, apenas 30% dos cargos de direcção ou chefia são ocupados por elas.
O paradigma está a mudar.
Li uma vez que “as mudanças estruturais não se fazem por decreto”, apesar de que a legislação sempre foi motor da mudança. Hoje em dia, já não existe já poder marital, sendo que a nossa Constituição, no seu artigo 13º, prescreve que Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.” e que “Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de […] sexo, […]condição social ou orientação sexual.” Em lugar do poder paternal, surgem hoje, no nosso Código Civil, as Responsabilidades Parentais, competindo ao Pai e à Mãe, ao mesmo nível, todos os “poderes” e “deveres” respeitantes ao sustento e educação de seus filhos, numa perspectiva de partilha e entreajuda.
O direito da família está como que a “descarregar-se” de género, e o direito do trabalho já lhe é completamente alheio.
Resta-nos contribuir que a justiça e a sociedade acompanhem esta suave evolução.
Ao nível dos Tribunais é já visível: cada vez é mais aplicado o regime de “guarda conjunta”, há cada vez mais Pais que acompanham a infância de seus filhos de forma plena. Ao nível das entidades empregadoras, há cada vez mais a convicção de que flexibilizar os horários e permitir a conciliação da vida profissional com a familiar gera competitividade.
O facto de sermos homens ou mulheres não nos distingue assim tanto afinal. Somos pessoas, nascemos todos no mesmo plano de dignidade, e assistem-nos as mesmas responsabilidades para com os outros. Será assim tão relevante ser Homem ou Mulher?

 Joana Durães
Publicado no Boletim Cultural e Informativo da Associação Moradores Das Lameiras - Ano XXIV, n.º 99, Trimestral: Jul/Ago/Set 2011 www.amlameiras.pt

Aqui é Onde Me Sinto Triste e Com Vontade de...

É uma das muitas inscrições que podemos ler numa das muitas paredes de uma das muitas casas envelhecidas da já tão envelhecida cidade do porto.

Esta fez-me pensar.

Desde a identidade do seu autor, ou autora, identificado a tinta desgastade de uma qualquer lata de spray.
Imaginei-a com 15 anos, quem sabe menos, numa daquelas noites passadas no Piolho, com os amigos, com os que pensamos que vão estar conosco para sempre quando temos essa idade.

Imaginei-a depois de ter bebido umas quantas cervejas, de ter desperdiçado umas quantas conversas, de ter sorrido, de ter chorado, de se ter sentido acompanhada pelo álcool, ou simplesmente de se ter sentido sozinha, entre incógnitos humanos...
No Piolho toda a gente ri, toda a gente faz barulho, toda a gente parece diferente, mas a massa humana que se vislumbra torna-se uniforme, única, ao olhar mais atento de quem já não faz parte da pintura.
E mesmo o "aqui é onde me sinto triste" expressa a memória do estudante cansado, do estudante perdido, ou só do estudante que perde tempo e deixa a sua juventude nas mãos de um divertimento aparente, quiado pela nostalgia dessa massa de pessoas, iguais de dia para dia, que só um lenço ou um chapéu distingue.
Agora penso porque não estará completa a inscrição. Não estará completo o pensamento?
"E com vontade de..."
De ver televisão? De conversar?, como alguém terá acrescentado numa outra cor e caligrafia, dias ou anos mais tarde...
Fala a menina ou o velho esquecido pela cidade?
Ambos tão iguais na sua solidão, dentro e fora das paredes frias do Porto.
Fazem-se canções, sente-se o Porto, mas a cidade é muito mais do que as paredes velhas que cada esquina deixa esquecer, a cada minuto que passa.
São as pessoas, o que pensão e o que sentem, que nos deixam o porto na memória.
E essas palavras estão como que tatuadas no corpo da cidade.
A muy nobre, sempre leal e invicta Cidade do porto ainda hoje expressa a sua palavra "resiste", deixada por gerações inteiras em recantos que só quem aprende a caminhar conhece.
Estes pensamentos andas soltos na cidade, escondem-se de alguns e revelam-se a outros, como qualquer pensamento normal.
Fala o povo, quem vive, quem habita, ou quem vai ao Porto só de visita. Como eu gostava de saber o resto do pensamento, o traço escondido na mente da cidade, que a tinta não deixa ver.
Fala agora a menina, hoje deve ser mulher, que já não tem vontade, mas vontades...
Hoje já não deve ter consciência, ou lembrar-se sequer, de que a cidade tem vida, de que a Cidade sente, qde que a cidade absorve as marcas e momentos de todos quantos lá passam.
Cada copo, cada pedra, cada brisa, vai compondo uma personalidade que é de toda a gente um pouco, e que já nem um lenço ou um chapéu distingue.
Nós achamos que marcamos os objectos, nem por isso...
Eles vão-se toprnando naquilo que o tempo os faz tornar.
Vão-se construindo, vivendo, sorrindo, chorando, e assim se tornam únicos, assim se distinguem, e só por isso inspiram sentimentos.
Vejo a cidade sozinha, as multidões que aparecem e desaparecem, as profissões, os animais, os restos de gente, de vida, e as histórias de cada porta...
E não consigo saber, porque é que anos de solidão e companhia, de confusão e alegria, continuam a deixar acreditar que a Cidade fala, que a cidade pensa, vive, chora, ri...
Se a menina for velhinha, rica, forte, pobre ou sozinha, ande por onde andar, não lhe resta senão a memória.
Tempos que não voltam, mas que também não vão embora...Histórias soltas que se cruzam, numa mesma história...
E a própria Cidade grita, alto e para quem quer ouvir "Aqui é onde me sinto triste, e com vontade de..."

Joana Durães

Um Segundo Mais Feliz

Todos os dias troco um dia da minha vida por uma noite de sono. Tudo o que faço é importante.Ás vezes penso que o tempo é a moeda da existência... troco 10 minutos da minha vida por uma caneca de chá e um pão com queijo, 20 por um pouco de informação, 3 por um sorriso pepsodent... ás vezes pedem-me ajuda e digo que não tenho tempo, como quem acena uma nota de mil por não ter trocado. Sou egoísta, é um facto, mas a verdade é que estou a dar parte de mim, da minha existência, por uma causa que não me pertence. E será isso justo? Claro que ninguém se importa de dar uma tarde inteira de si por um banho de mar... mas quantos o fariam espontaneamente por um ataque epiléptico? Quantos o fariam por uma expectativa?
A verdade é que, bem ou mal gerido, o nosso tempo é escasso, e cada vez nos resta menos troco. Longe vai o tempo em que, como crianças, brincávamos com moedas pequenas!, longe vai o tempo em que nada durava mais que 10 minutos, em que não se faziam projectos a longo prazo, e em que ninguém pensava no que seria quando crescesse... depois de adultos já só pensamos nas notas, e nos empreendimentos de uma vida inteira... nada nos realiza se for pequeno, nada nos atrai se for grande demais. A vida toda chega perfeitamente.
Qual é o problema? É que se algo nos falha, ficamos (geralmente na velhice) com a sensação de ter perdido o porta-moedas e, azar dos azares, com o dinheiro todo lá dentro... e como se não bastasse, na maior parte das vezes não temos já tempo para procurá-lo... e ficamos tristes. Fracassados.
Chego todos os dias á conclusão que o melhor será mesmo andar com as moedas pequenas e gasta-las á vontade, esquecendo que temos as notas... inevitavelmente veremos um dia que até as notas foram gastas, mas não todas numa coisa grande e inútil, mas em muitas pequenas coisas que fizeram a nossa felicidade ao longo da vida. O tempo corre quer queiramos, quer não. Passa, ultrapassa-nos. Não depende de nós.
Cabe-nos a escolha. Seremos todos velhos pobres e frustrados de desperdício... ou eternas crianças brincantes, para quem um copo de água é a alegria de uma tarde. Deitaremos ao vento as notas que não pesam... ou passaremos a vida a trocar pequenas moedas por grandes momentos? Cada um sabe de si.
De que vale perguntar-se o que demorará menos tempo, o que durará mais, ou o que será mais efémero? Já dizia o Poeta que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”... mas de que vale a grandeza da alma, perante a pequenez dos limites, dos sentidos, da utopia? Ao pensar em tudo isto, troco freneticamente cerca de 1 segundo por cada caracter que deposito nesta página já não tão em branco como havia sido momentos antes... terá valido a pena? Pelo menos não perdi o porta-moedas! Não agora, que ainda me julgo uma criança capaz de tudo, com a vida toda pela frente. Não agora que nada me mete medo porque nada é realmente importante. Não agora que penso ainda que o último dia nunca chegará....
Eu tenho a certeza que sou jovem enquanto me sentir imortal. E hoje sei que sou imortal.

Joana Durães


O Homem Que Vivia em Cima Do Muro

Estava sol... e se alguma vez o muro parecera sombrio e degradado, chegado ao chão, à realidade, agora cada vez mais ele se mostrava alto e vivo como a alta montanha de onde os índios vêm o mundo. E também ele se enganava a si mesmo julgando que por estar em cima do muro conseguiria ver todo o mundo e dominar tudo aquilo que os seus olhos viam... mas quão ingénuas podem ser as mentes! Aquela realidade não lhe pertencia... porquê? Em cima do muro quem pode dizer que tem algo de seu?
Cá em baixo duas realidades diferentes, uma de cada lado do muro, e só cabia ao Homem-que-vivia-em-cima-do-muro decidir qual delas seria a sua...
Naquela manhã até se sentia confiante... achava-se capaz de escolher, achava-se jovem e acreditava que tudo na vida podia esperar pela sua decisão. Para ser sincero, em cima do muro sentia-se nas nuvens... como se fosse o dono do mundo, não pensava sequer que quanto mais depressa descesse, mais depressa seria feliz.
Ninguém sabe ao certo como terá chegado ao cimo do muro mas há rumores de que em tempos o Homem-que-vivia-em-cima-do-muro teria desejado um mundo diferente do que lhe fora destinado... e tê-lo-ia feito com tanta força que lhe fora dada a oportunidade de escolher... mas isso são as vozes populares, avós dos meus avós, que vão passando adiante a história que ouviram contar, mas que nunca souberam verdade...
E de facto, a verdade ninguém sabe, sempre o conheceram em cima do muro, “Bom dia senhor Artur!” pra cá, “Boa noite, Senhor” pra lá... mas pouco mais do que isso... sabia-se que ele podia descer a qualquer altura, mas para o fazer teria de escolher um dos lados do muro e, uma vez de um lado, nunca poderia regressar ao outro. Era por isso que ano após ano ele ia ficando por lá, sentado, ora olhando a bombordo, ora a estibordo, como se o muro fosse o seu próprio navio e ele tivesse de lhe dar um rumo... pesava prós e contras, os dois mundos tinham algo que o seduzia: de um dos lados seria rei, do outro, estava sempre sol e havia uma árvore com maçãs, cuja sombra o faria feliz.
O mais difícil era mesmo decidir... sempre tinha desejado reinar, ser respeitado aclamado, conhecido... mais do que alguma vez se sentira... sonhava com o mérito, o reconhecimento. Quantas vezes não se tinha achado em cima do muro com os olhos fechados, a sorrir, imaginando o quão feliz seria se descesse do muro e reinasse.
O pior era que a sombra da macieira, a calma da primavera, e o sol a acarinhar-lhe os olhos por entre as folhas da árvore nas tardes de verão também eram parte da sua felicidade... e só o facto de pensar em abdicar de tudo isto o deprimiam... no entanto, também não se sentia capaz de desistir do seu reino... e por isso continuava em cima do muro... dia após dia.
Muitas vezes lhe perguntavam se gostaria de dar um passeio, uma vez uma criança até lhe emprestou uma bicicleta! Mas o Senhor (como então lhe chamavam) quase ia caindo abaixo do muro, pelo que resolveu nunca mais tentar. Sabia que seria feliz um dia, e isso bastava-lhe. Mas enquanto isso, fazia a sua felicidade de pensamentos e sonhava com o dia em que alguma daquelas realidades fosse a sua. Só dependia dele, mas nunca tivera realmente a noção de que o tempo passa e, com ele, tudo o que é vivo.
De vez em quando tentava pender ligeiramente para um dos lados do muro, ora debruçando-se, ora sentando-se com as pernas para um dos lados apenas, mas de cada vez que o fazia ficava aterrorizado com a ideia de perder metade do mundo que sempre vira e que, embora não fizesse parte dele fisicamente, tivera sempre como seu.
Chegara à conclusão que a sua vida era feita de situações hipotéticas: “se eu descesse”, “se eu reinasse”, “se eu pudesse passar as minhas mãos pela relva fresca”... e havia que limitar as possibilidades: se por um lado lhe parecia que havia apenas três formas de continuar (descer, descer, ou não descer)... por outro, uma infinidade de alternativas povoavam a sua mente já tão conformada com a indecisão.
Entre deixar-se cair à sorte para um dos lados do muro, e deixar-se ficar para sempre no topo da sua montanha, uma nova ideia lhe surge: já que o muro é o culpado de todo o seu tormento, porque não destrui-lo?
E assim fez... durante dias e dias escavou em linha recta, na vertical, em direcção ao solo. Na sua mente apenas a vontade de alcançar a terra firme, razão da sua existência, motor da sua actividade. Nada mais lhe importava, ciente de que alcançando o solo seria feliz sem necessidade de fazer concessões, punha toda a sua força naquilo que fazia. Destruía todas as barreiras à sua felicidade, e fazia-o com um enorme sorriso. Sonhava com a hora de tocar o chão e, quanto mais pensava nesse momento, mais chegava à conclusão de que nunca seria capaz de dar o primeiro passo em direcção a um lado... ou ao outro. Pior que tudo: perdera o seu navio, o seu oráculo, a sua torre de controlo... a sua varanda para o mundo.
Toda a sua motivação fora embora em segundos. Exausto, parou de escavar (de que lhe serviria então?). Os seus braços, vencidos pelo cansaço de dias seguidos de um esforço sobre-humano, deixaram-se cair. Sentiu-se um falhado.
Já não tinha forças nem ilusões e, de todas as vezes que desejara nunca mais acordar, esta era a que o fazia com mais convicção. Adormeceu absorto em pensamentos nostálgicos acerca de como havia sido feliz outrora, em cima do muro que, embora não fosse a morada dos seus sonhos, o fizera já bastante feliz. Nunca tinha dado valor, mas a verdade é que fora realmente feliz em cima do muro.
Era triste ver como desperdiçara a única coisa que tinha de seu, e, se alguma vez se tinha sentido incompleto lá em cima, sentia agora falta dessa imperfeição... sentia que aquilo que não podemos ter é parte da nossa motivação para prosseguir, serve para que consigamos dar valor ao alcançável.
Sabia-o agora, mas era tarde. Se ao menos tivesse pensado nisto antes... – repetia inconscientemente para si mesmo, já que o sono profundo em que se deixara abater o impedia de elaborar ele mesmo um pensamento sólido.
No ar pairava a ideia de que de nada vale ter objectivos. Para quê projectar, construir, destruir, aspirar? Porquê querer mais... porquê querer? O homem que agora dormia não tornaria a tomar decisões, por mais simples que lhe parecessem. O seu semblante vencido deixava adivinhar que nunca mais lutaria por nada, nunca mais daria um passo cuja direcção dependesse de si, da sua vontade. Não voltaria a pôr parte de si em nada do que fizesse. Sim, jamais voltaria a dar algo de si... fosse pelo que fosse... e estava certo disso.
Teve dificuldade em abrir os olhos, selados por suaves raios de sol que brincavam ás escondidas por entre as folhas da árvore mágica, dando-lhe a sensação de estar a sonhar com o paraíso... mas teve mesmo que os abrir.
Ao longe ouvia vozes que se aproximavam, vozes chegavam cada vez mais perto de si. Ouviu então uma que lhe pareceu dirigir-se-lhe:
“Sua Majestade, o projecto real espera pela sua decisão.”
Nisto fechou os olhos com muita força... e acenou afirmativamente com a cabeça.
O muro (ou o que restava dele) foi partido em pedaços e vendido como recordação aos turistas. Dizem as más-línguas que é impossível ter escavado com as próprias mãos, mas a verdade é que o objecto que usou nunca chegou a ser encontrado. Há dias em que o Sol brilha.

Joana Durães

Nós que temos tudo

Nós que temos tudo,
Vemos o mundo ao contrário.
Temos o poder
A vontade
E o poder
E não queremos nada.
Temos a sorte e podemos crer
Que o que tiver de ser,
Não será ao contrário...
As vezes é...

A coisa

Todas as coisas têm um brilho. Ou porque são novas, desconhecidas, ou porque não nos permitimos tê-las...
E todas as coisas perdem o brilho. E não falo de pessoas. Mas de coisas.
Objectos. Perceptiveis pelos sentidos, apropriáveis pelo Homem.
Coisas.
Adoro a sensação de um objecto permanecer na memória. Aquilo que perdemos nas arrumações, na praia, na juventude, e já não nos lembramos sequer do que é.
O anel, a carteira, o códigop civil, quantas coisas já perdi sem saber sequer do que falo.
É grandiosa a sensação de algo que perdi não me fazer falta.
É divertida a sensação de não me lembrar sequer, porque tenho dificuldade em ter a certeza que foi uma perda.
Será que posso falar em perda objectiva (porque perdi) e perda subjectiva (porque não senti a falta)?
Esta distinção transposta para as demais aventuras da vida é irónica...

Joana Durães