Estava sol... e se alguma vez o muro parecera sombrio e degradado, chegado ao chão, à realidade, agora cada vez mais ele se mostrava alto e vivo como a alta montanha de onde os índios vêm o mundo. E também ele se enganava a si mesmo julgando que por estar em cima do muro conseguiria ver todo o mundo e dominar tudo aquilo que os seus olhos viam... mas quão ingénuas podem ser as mentes! Aquela realidade não lhe pertencia... porquê? Em cima do muro quem pode dizer que tem algo de seu?
Cá em baixo duas realidades diferentes, uma de cada lado do muro, e só cabia ao Homem-que-vivia-em-cima-do-muro decidir qual delas seria a sua...
Naquela manhã até se sentia confiante... achava-se capaz de escolher, achava-se jovem e acreditava que tudo na vida podia esperar pela sua decisão. Para ser sincero, em cima do muro sentia-se nas nuvens... como se fosse o dono do mundo, não pensava sequer que quanto mais depressa descesse, mais depressa seria feliz.
Ninguém sabe ao certo como terá chegado ao cimo do muro mas há rumores de que em tempos o Homem-que-vivia-em-cima-do-muro teria desejado um mundo diferente do que lhe fora destinado... e tê-lo-ia feito com tanta força que lhe fora dada a oportunidade de escolher... mas isso são as vozes populares, avós dos meus avós, que vão passando adiante a história que ouviram contar, mas que nunca souberam verdade...
E de facto, a verdade ninguém sabe, sempre o conheceram em cima do muro, “Bom dia senhor Artur!” pra cá, “Boa noite, Senhor” pra lá... mas pouco mais do que isso... sabia-se que ele podia descer a qualquer altura, mas para o fazer teria de escolher um dos lados do muro e, uma vez de um lado, nunca poderia regressar ao outro. Era por isso que ano após ano ele ia ficando por lá, sentado, ora olhando a bombordo, ora a estibordo, como se o muro fosse o seu próprio navio e ele tivesse de lhe dar um rumo... pesava prós e contras, os dois mundos tinham algo que o seduzia: de um dos lados seria rei, do outro, estava sempre sol e havia uma árvore com maçãs, cuja sombra o faria feliz.
O mais difícil era mesmo decidir... sempre tinha desejado reinar, ser respeitado aclamado, conhecido... mais do que alguma vez se sentira... sonhava com o mérito, o reconhecimento. Quantas vezes não se tinha achado em cima do muro com os olhos fechados, a sorrir, imaginando o quão feliz seria se descesse do muro e reinasse.
O pior era que a sombra da macieira, a calma da primavera, e o sol a acarinhar-lhe os olhos por entre as folhas da árvore nas tardes de verão também eram parte da sua felicidade... e só o facto de pensar em abdicar de tudo isto o deprimiam... no entanto, também não se sentia capaz de desistir do seu reino... e por isso continuava em cima do muro... dia após dia.
Muitas vezes lhe perguntavam se gostaria de dar um passeio, uma vez uma criança até lhe emprestou uma bicicleta! Mas o Senhor (como então lhe chamavam) quase ia caindo abaixo do muro, pelo que resolveu nunca mais tentar. Sabia que seria feliz um dia, e isso bastava-lhe. Mas enquanto isso, fazia a sua felicidade de pensamentos e sonhava com o dia em que alguma daquelas realidades fosse a sua. Só dependia dele, mas nunca tivera realmente a noção de que o tempo passa e, com ele, tudo o que é vivo.
De vez em quando tentava pender ligeiramente para um dos lados do muro, ora debruçando-se, ora sentando-se com as pernas para um dos lados apenas, mas de cada vez que o fazia ficava aterrorizado com a ideia de perder metade do mundo que sempre vira e que, embora não fizesse parte dele fisicamente, tivera sempre como seu.
Chegara à conclusão que a sua vida era feita de situações hipotéticas: “se eu descesse”, “se eu reinasse”, “se eu pudesse passar as minhas mãos pela relva fresca”... e havia que limitar as possibilidades: se por um lado lhe parecia que havia apenas três formas de continuar (descer, descer, ou não descer)... por outro, uma infinidade de alternativas povoavam a sua mente já tão conformada com a indecisão.
Entre deixar-se cair à sorte para um dos lados do muro, e deixar-se ficar para sempre no topo da sua montanha, uma nova ideia lhe surge: já que o muro é o culpado de todo o seu tormento, porque não destrui-lo?
E assim fez... durante dias e dias escavou em linha recta, na vertical, em direcção ao solo. Na sua mente apenas a vontade de alcançar a terra firme, razão da sua existência, motor da sua actividade. Nada mais lhe importava, ciente de que alcançando o solo seria feliz sem necessidade de fazer concessões, punha toda a sua força naquilo que fazia. Destruía todas as barreiras à sua felicidade, e fazia-o com um enorme sorriso. Sonhava com a hora de tocar o chão e, quanto mais pensava nesse momento, mais chegava à conclusão de que nunca seria capaz de dar o primeiro passo em direcção a um lado... ou ao outro. Pior que tudo: perdera o seu navio, o seu oráculo, a sua torre de controlo... a sua varanda para o mundo.
Toda a sua motivação fora embora em segundos. Exausto, parou de escavar (de que lhe serviria então?). Os seus braços, vencidos pelo cansaço de dias seguidos de um esforço sobre-humano, deixaram-se cair. Sentiu-se um falhado.
Já não tinha forças nem ilusões e, de todas as vezes que desejara nunca mais acordar, esta era a que o fazia com mais convicção. Adormeceu absorto em pensamentos nostálgicos acerca de como havia sido feliz outrora, em cima do muro que, embora não fosse a morada dos seus sonhos, o fizera já bastante feliz. Nunca tinha dado valor, mas a verdade é que fora realmente feliz em cima do muro.
Era triste ver como desperdiçara a única coisa que tinha de seu, e, se alguma vez se tinha sentido incompleto lá em cima, sentia agora falta dessa imperfeição... sentia que aquilo que não podemos ter é parte da nossa motivação para prosseguir, serve para que consigamos dar valor ao alcançável.
Sabia-o agora, mas era tarde. Se ao menos tivesse pensado nisto antes... – repetia inconscientemente para si mesmo, já que o sono profundo em que se deixara abater o impedia de elaborar ele mesmo um pensamento sólido.
No ar pairava a ideia de que de nada vale ter objectivos. Para quê projectar, construir, destruir, aspirar? Porquê querer mais... porquê querer? O homem que agora dormia não tornaria a tomar decisões, por mais simples que lhe parecessem. O seu semblante vencido deixava adivinhar que nunca mais lutaria por nada, nunca mais daria um passo cuja direcção dependesse de si, da sua vontade. Não voltaria a pôr parte de si em nada do que fizesse. Sim, jamais voltaria a dar algo de si... fosse pelo que fosse... e estava certo disso.
Teve dificuldade em abrir os olhos, selados por suaves raios de sol que brincavam ás escondidas por entre as folhas da árvore mágica, dando-lhe a sensação de estar a sonhar com o paraíso... mas teve mesmo que os abrir.
Ao longe ouvia vozes que se aproximavam, vozes chegavam cada vez mais perto de si. Ouviu então uma que lhe pareceu dirigir-se-lhe:
“Sua Majestade, o projecto real espera pela sua decisão.”
Nisto fechou os olhos com muita força... e acenou afirmativamente com a cabeça.
O muro (ou o que restava dele) foi partido em pedaços e vendido como recordação aos turistas. Dizem as más-línguas que é impossível ter escavado com as próprias mãos, mas a verdade é que o objecto que usou nunca chegou a ser encontrado. Há dias em que o Sol brilha.
Joana Durães