quinta-feira, 9 de maio de 2013

# Eu tinha tudo



Eu tenho tudo. Não há ninguém que seja mais feliz do que eu, porque eu tenho tudo. Sempre tive. Lutei toda a minha vida para que tivesse um dia algo de meu. Muito de meu. E tenho. Não há nada que eu deseje e não possa ter, que eu queira e não esteja ao meu alcance... nada. E isso faz-me feliz. Todos me adoram, o meu património é consideravelmente imperial. Tenho animais de estimação, criados, mulher, filhos... e se tentar pensar em algo que me faça falta... não, eu sou emocionalmente estável... a minha mulher deixa de trabalhar para dar assistência á família, está sempre em casa. Eu trabalho pouco porque sou o chefe. Os meus filhos adoram-me primeiro porque lhes dou tudo, e segundo porque como nenhum chefe me explora, não sou frustrado e nunca lhes bato... enfim, a minha vida é perfeita.Eu tenho mesmo tudo.
Às vezes pergunto a mim mesmo até onde irá tanta perfeição... não acredito que dure para sempre, mas sinceramente, com a sorte que eu tenho não vejo a possibilidade de tudo mudar de um dia para o outro. Há pessoas assim... umas nascem para padecer, outras para aprenderem com o sofrimento da humanidade. É o meu caso, acho.
Perguntam-me se não me sinto mal por ser assim altivo e soberbo... claro que não! Antes soberbo do que infeliz! Já não bastavam os pobres a lamentarem-se de todo o mal que lhes acontece, ainda havia o resto do mundo de lamentar-se com eles... se ao menos isso os fizesse felizes..., agora assim... é perda de tempo. Eles até gostam de alguém que lhes lembre que a felicidade não é um mito, que até existe gente que tem telemóveis, (se bem que nos dias de hoje se arranja mais facilmente telemóveis do que comida) e que não é só nos filmes que as pessoas ganham dinheiro sem trabalhar. A sério, acredito que eles gostam. De outra forma ficariam desmotivados.
E claro que o resto do mundo agradece a motivação. Se os que trabalham deixassem de o fazer, os que ganham sem trabalhar deixariam de ter rendimentos ou, o que ainda é pior, teriam de produzir eles próprios. É por isso que eu digo sempre: “Deixem trabalhar os pobres, que eles precisam mais do que nós.” É certo, não é?
Acusem-me do que quiserem, mas de avarento não. Muito menos de invejoso. Se eu não preciso de trabalhar, para quê impedir os que precisam realmente? Não é que eu não veja beleza no acto de trabalhar... simplesmente para mim o trabalho é como uma obra de arte, como uma tela... deve ser observado, mas a uma distância não inferior a 20 centímetros. E é o que tento fazer. Observo-o, mas de longe, para que não perca a magia.
Claro que nem toda a gente compreende esta minha postura. Mas a satisfação que me proporciona dizer-lhes que, quer queiram ou não, as suas opiniões em nada interferem na minha capacidade natural para lhes ser superior, torna-me imune a provocações. Mando nelas, ponto para mim.
Tenho até pensado em deixar de ouvir opiniões... não combinam com a vida descontraída que levo, nem com o meu carro desportivo, e muito menos com o meu fato semi-prateado que, modéstia a parte, me fica até muito bem. As únicas opiniões que me agrada ouvir são as minhas próprias, que em nada me incomodam. Eu e elas estamos sempre de acordo. Sou estável.
Quando me pedem que me descreva em adjectivos, entre os muitos que me vêem á mente (porque eu sou realmente muito rico em todos os aspectos), nunca deixo de referir: ocioso, presidente e respeitado. Não, não sou nenhum aristocrata, mas as pessoas costumam respeitar-me.
Não havia cargo mais alto, por isso tive de contentar-me com o de presidente... Não penso perdê-lo. Pelo menos enquanto não criar um ainda superior, só para mim. Quanto á minha versátil ociosidade nada preciso de dizer... sei de onde ela vem e em que a posso empregar. Isso basta-me e faz-me feliz.
E só eu sei como é bom deixar de respeitar este ou aquele, que me olha com cara de “Sim, Senhor Dr.”... e poder fazê-lo com a legitimidade de um ser superior (que sou na realidade). É reconfortante saber que o mundo baixa a cabeça a uma palavra nossa. De que mais preciso? Eu sei que me estou a tornar um tirano, mas que me importa, se isso em nada afecta a minha riqueza, ou a capacidade de chefiar? Para que preciso de convencer quando posso subornar? De pedir, se basta querer? Se a vida fosse um jogo colectivo eu estaria na equipa vencedora, certamente. E para quê mudar isso?
É claro que acordo muitas vezes a pensar como seria se o mundo acabasse e eu estivesse sozinho no meu descapotável a tentar telefonar ao meu assistente de imagem...
Mas isso, só acontece aos outros.

JDurães, à tecla livre, 2002.

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