quinta-feira, 9 de maio de 2013

# Testemunha



Ele não tinha feito nada de mal. Ia simplesmente pela rua. Calado, mãos nos bolsos, nada lhe podia atrapalhar ou prender o campo visual. Não havia publicidade que não conhecesse, incógnitas geográficas, nada.
Absorvido pelas suas fantasias sociais, pensava em quantas oportunidades teria na vida de aparecer na televisão num canal privado, de enriquecer por negligência ou qualquer outra coisa daquelas que só acontecem aos outros.
Como todos os dias: café e jornal. E teve de folhear desinteressadamente todo o objecto até que os seus olhos se prendessem em algo suficientemente importante. Crianças que morrem não são importantes, empresas que fecham não estimulam o cérebro. Mas o que vira sim:

PRECISA-SE

PRESENCIADOR DE HOMICÍDIOS.
Sério e imparcial.
Para testemunha em futuros litígios.
Marcar entrevista.

  
E o jornal até era sério! Das duas, uma: ou o crime organizado tinha um protagonismo fora do comum na actividade marginal do país, ou o brincalhão cósmico tinha descido do espaço, ou alguém era míope, ou louco... só podia ser do café.
Convencido de que os seus olhos tinham visto mal, fechou o jornal... e esqueceu.
Mas realmente... nunca tinha presenciado nenhum. E pensou nisso durante muito tempo.
Como seria não precisar de investigar, de reconstituir o crime? Como será ter a noção de que a verdade é inata?
De facto, tudo seria mais fácil assim.
E enquanto retomava o seu caminho habitual de incursões filosóficas até casa, pensava na sensação de dizer “eu vi!”. Nunca respondeu ao anúncio.
Uns dias depois o seu cérebro continuava amordaçado. Ânsia de verdade, de sanidade, de descanso. Imaginava como seria presenciar um atentado, um homicídio verdadeiro. Daqueles que acontecem nas velhas mansões, cheias de velas e fantasmas, e cujos donos aparecem sempre de roupão. Quase conseguia vê-lo por entre os candelabros da mesa da sala de jantar. Era velho, magro... e a julgar pelo vinho de reserva que tinha em cima da mesa, devia ter uma fortuna incalculável.
Já não sorria porque a idade e a solidão não lhe permitiam.
Claro que tinha herdeiros, poucos mas tinha. E daqueles que espreitam atrás das árvores em cada esquina em que passamos de carro.
Como das outras vezes, o velho retira-se por momentos, apenas para procurar o relógio de bolso que certamente deixara numa outra divisão. É então que, através da cortina que me esconde, consigo ver a sombra de uma mão, não uma mão, que verte na bebida do velho algumas gotas de um químico que eu deduzo ser clorofórmio. Não há crimes sem clorofórmio.
E claro, o resto é inevitável. O velho adormece... e acorda morto com a cabeça pousada na mesa em cima das mãos. Eu estou escondido atrás da cortina, com a feliz sensação de que quando a polícia chegar (também não há crimes sem polícia), EU SEI TUDO O QUE SE PASSOU!
E nisto tocam violentamente á porta. Nada que eu não tivesse já previsto, entra a brigada de homicídios pela sala dentro, aquelas fitas amarelas que dizem “keep out”, e todo o meu sonho se realiza. Eu sei TUDO o que se passou naquela sala. Eles não.
Estou contente. Atrás da cortina esboço um sorriso de felicidade. Alguém diz “Alto!”. E depois tudo se desenrola naturalmente... eu vou preso, sou interrogado, vou a tribunal. Tudo normal.
Matar? Eu? Eu não o matei! Estava atrás da cortina! Não, não vi quem foi, mas podem confirmar, não tenho vestígios de clorofórmio comigo! Como sabia eu do clorofórmio? EU ESTAVA ATRÁS DA CORTINA! Á ESPERA DE PRESENCIAR UM HOMICÍDIO! SÓ ISSO!

Bem, conta-se que 6 anos depois, e ainda em liberdade condicional, pôde finalmente tomar o seu café no sítio do costume. Erguendo o jornal, teve pela primeira vez a consciência de que nunca devia ter colocado aquele anúncio.
Se fosse hoje, talvez escrevesse:

PRECISA-SE

PRESENCIADOR DE HOMICÍDIOS.
Com conhecimentos na polícia.
Que trabalhe ao domicílio.
Turnos de 24 horas.


  
Ou talvez hoje nunca colocasse um anúncio. Talvez preferisse aparecer na televisão... ou talvez achasse que determinadas coisas realmente só acontecem aos outros.
Nunca foi encontrado o verdadeiro homicida, e crê-se até que nunca tenha existido. Nada acontece por acaso, mas é um facto: o clorofórmio existe.
Há rumores de que anos depois, os investigadores encontraram, num pequeno cemitério perdido no meio de um monte uma campa sem nome que dizia:


Aqui jaz um homem de convicções... 
corajoso, psicopata, homicida, mentiroso, 
esquisofrénico e, acima de tudo... Um bom amigo.

Feliz por realizar um sonho teu: PAI










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