# Nós, os advogados
Com uma palavra de afecto às pessoas que durante esta semana se prestaram a ouvir-me, a orientar-me, ou tão só a desejar que eu me encontre bem.
Seria previsível e óbvio que a primeira frase deste texto fosse: um advogado não tem horas. Seja. Um advogado não tem horas.
Tem bocados de tempo, em rolo, molde ou farrapos, que costura, desfaz e aproveita, na medida do necessário ao descanso dos outros.
Um advogado não tem horário, tem disciplina. E disciplina-se em função do que tem em mãos, fracasso e sucesso, tempos e pausas, dos outros. Problemas e alegrias, desgaste e conforto, dos outros. E é com isto que vive. E é disto que vive.
Mais do que do dinheiro, o advogado vive deste prazer masoquista de fazer bem o que vai melhorar a vida dos outros, de accionar o sucesso, de se pugnar pela razão que a sociedade, deixada ao acaso, não reconheceria por si. Alimenta-se desta entrega de simbiose assimétrica perfeita entre aquilo que é o interesse do cliente, e aquilo que seriam os seus próprios interesses, ou do que faria por si mesmo. Dorme com eles e levanta-se com eles. Toma o pequeno almoço com eles e é multado no trânsito com eles. Ou por causa deles. Já nem sei.
Um advogado, reconhece que estável é bom, para os outros.
Mas não conhece essa realidade paralela de que falam. Assusta-se de pensar que não existe mais universo para além do estável, e convive com a ideia de estar certo, e de o mundo estar todo errado, pois teses, são apenas isso. Só existe uma. Ouve toda a gente, mas decide sozinho. Pragueja uma vida inteira, fusas e semibreves que nunca chegam a soar, porque nos intervalos do descanso, tem prazos.
Mesmo os que já desejaram trabalhar com as mãos, para que as "vibrações dos seus nervos" não fossem a "soma das vibrações dos nervos dos seus clientes", ou tentados com uma vida subordinada de vencimento e regalias, de descanso previsível e periódico, de realização parametrizada no código fonte das sociedades modernas. Um advogado não vê tentações, vê desafios.
Não me atreveria a dizer que "os advogados que não são assim não são advogados", mas sinceramente, não sei se isto nasce conosco, de onde vem ou como se fixa, mas acordo muitas vezes de madrugada, vejo a paisagem molhada da noite fria, e com a certeza de que, apesar de eu não ter visto, o orvalho não cai, forma-se. Ando sempre armada. De autonomia.
E se não sou mais do que isto, é porque não quero.
Jduraes à tecla livre, 2013.12.19.
Largamente inspirada no texto de Ary dos Santos (1934, "Nós, Os Advogados") e em mais uma série de distintas personalidades que me vou escusar de mencionar, mas que se sabem incluídas, e às quais agradeço boa parte disto que sou.
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