quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

# Nós, os advogados

# Nós, os advogados

Com uma palavra de afecto às pessoas que durante esta semana se prestaram a ouvir-me, a orientar-me, ou tão só a desejar que eu me encontre bem.

Seria previsível e óbvio que a primeira frase deste texto fosse: um advogado não tem horas. Seja. Um advogado não tem horas.

Tem bocados de tempo, em rolo, molde ou farrapos, que costura, desfaz e aproveita, na medida do necessário ao descanso dos outros.
Um advogado não tem horário, tem disciplina. E disciplina-se em função do que tem em mãos, fracasso e sucesso, tempos e pausas, dos outros. Problemas e alegrias, desgaste e conforto, dos outros. E é com isto que vive. E é disto que vive.
Mais do que do dinheiro, o advogado vive deste prazer masoquista de fazer bem o que vai melhorar a vida dos outros, de accionar o sucesso, de se pugnar pela razão que a sociedade, deixada ao acaso, não reconheceria por si. Alimenta-se desta entrega de simbiose assimétrica perfeita entre aquilo que é o interesse do cliente, e aquilo que seriam os seus próprios interesses, ou do que faria por si mesmo. Dorme com eles e levanta-se com eles. Toma o pequeno almoço com eles e é multado no trânsito com eles. Ou por causa deles. Já nem sei.
Um advogado, reconhece que estável é bom, para os outros.
Mas não conhece essa realidade paralela de que falam. Assusta-se de pensar que não existe mais universo para além do estável, e convive com a ideia de estar certo, e de o mundo estar todo errado, pois teses, são apenas isso. Só existe uma. Ouve toda a gente, mas decide sozinho. Pragueja uma vida inteira, fusas e semibreves que nunca chegam a soar, porque nos intervalos do descanso, tem prazos.

Mesmo os que já desejaram trabalhar com as mãos, para que as "vibrações dos seus nervos" não fossem a "soma das vibrações dos nervos dos seus clientes", ou tentados com uma vida subordinada de vencimento e regalias, de descanso previsível e periódico, de realização parametrizada no código fonte das sociedades modernas. Um advogado não vê tentações, vê desafios.

Não me atreveria a dizer que "os advogados que não são assim não são advogados", mas sinceramente, não sei se isto nasce conosco, de onde vem ou como se fixa, mas acordo muitas vezes de madrugada, vejo a paisagem molhada da noite fria, e com a certeza de que, apesar de eu não ter visto, o orvalho não cai, forma-se. Ando sempre armada. De autonomia.
E se não sou mais do que isto, é porque não quero.

Jduraes à tecla livre, 2013.12.19.

Largamente inspirada no texto de Ary dos Santos (1934, "Nós, Os Advogados") e em mais uma série de distintas personalidades que me vou escusar de mencionar, mas que se sabem incluídas, e às quais agradeço boa parte disto que sou.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

# cansada e incansável

Estamos sempre muito cansados para dar valor àquilo que temos sempre. Procuramos o novo, o indefinido, desfazemos-nos em esforços para sair do lugar em que estamos, encontrar melhor pouso ou melhor vento que nos traga a fortuna e a sorte. Somos incansáveis no perseguir aquilo que achamos que queremos, mas muito fracos em conquistar o que está sempre presente.
Tratamos mal a vida como se lhe fossemos superiores, como se a saúde fosse inesgotável, e vemos as nossas maiores alegrias como entrave à nossa progressão. Só porque estão sempre lá.
Damos importância a mais ao que nos desgasta, e importância a menos ao que nos conforta.
Categorizamos tudo em padrões de pseudo-felicidade socialmente correcta, nos zeros e uns da estabilidade emocional.
Buscamos o inédito, sonhamos o inovador, o sair da zona de conforto e viver o desconhecido na rédea da cepa torta, que havemos de endireitar.
Cansados, apoiamo-nos na mesma cepa. E estava lá.
Rio-me do esforço infinito de buscar a instabilidade de coisa nenhuma, para conseguir afinal aquilo que seria uma medalha de ouro no pódio da estabilidade, em tom de de desejo primeiro e último.
Vou ser emocionalmente correcta, e rir-me de mim mesma também, mas lembro-me que já me haviam falado sobre isto: "cuidado com o que desejas, porque podes conseguir".

Boa noite,
Jduraes à tecla livre 2013.12.11

# O homem que pede na ponte II

Ás vezes dou, ás vezes não dou. É conforme pode ser, pela minha condição e a minha vontade, naquele dia. Independentemente do que posso dar, faço questão de oferecer uma justificação, em tom de conforto, de um aquecedor da alma, de que os dias de dezembro expressam a falta. Não deixo de receber em troca os desejos de uma santa viagem, de muita saúde, para mim e para os meus, um saco cheio de esperanças de que estejamos todos bem, pois o nada que ele dá, dá sempre.

E não o vejo perder nada com isso, antes ganhar, em tempos em que da vida contamos com a falta de reconhecimento, com o não, com as reservas no dar sem receber, no confiar sem saber.

Queremos mais confiança, mas não procuramos o confiável, nem nos mostramos confiáveis. Fiável é algo que apresenta uma menor quantidade de erros por número de vezes que um evento se produz, e não aquilo que se apresenta diante de nós como desejávamos que fosse.

Queremos mais reconhecimento, mas não reconhecemos o valor dos momentos insignificantes, das atitudes condicionadas, por aquilo que não somos e talvez não cheguemos a compreender. Não nos fazemos dignos, porque não queremos dar demais.

Como se o passado relevasse, á escala da terra, ou nos livrasse da queda, do erro, do juízo mal feito. Como se o futuro tivesse volante ou pedais.

Para o homem que pede na ponte, não há futuro, há futuros.
E quando na vida me dizem para não dar demais, a minha resposta é sempre a mesma: ás vezes dou, ás vezes não dou.

Jduraes à tecla livre, 2013.12.08

# Reijin 11-31


Ela pensava que a vida seria toda uma. Que o tempo nos unisse, nunca nos separasse. Pensava que o por do sol seria para sempre, e que todos os fins de tarde íamos aprender coisas novas, e esperar que escureça, sem pressa. Esperava ver as estrelas que não falam, nem precisam, que não mentem, nem estremecem, não assustam, nem desaparecem... e sabe que lá estão, ou suspeita.
Ela cresceu a pensar que não cairia da árvore, que a mãe nunca seria frágil, e que a música cigana nunca passaria de moda. E houve tempos em que ela queria que o bronzeado nunca saísse do corpo salgado, que o Agosto mancha de saudades, tantas que nem se lembrava da escola ou do resto do ano. Nunca soube se o azul é mesmo azul, ou se nós é que lhe chamamos assim, e todos concordam.
Caiu da árvore, e depois caiu a árvore, sem que tivesse a certeza se as estrelas estão mesmo lá. Viu nascer o sol, cada vez menos salgado, e todos os anos lhe doía mais a ferida de perder a árvore, do que a cicatriz de ter caído.
Todos os anos, estava mais longe o som do por do sol, o frágil do bronzeado, a moda do aprender. Mas ela não deixou de suspeitar.
Todos sabemos que o mundo estava todo errado e ela certa, mas a verdade é que há dias, em que por momentos, ao fim da tarde, consigo vê-la brincar. Consigo ouvir o mar cor-de-laranja. E acredito, que apesar de ela não ter a certeza se eu estou aqui, de ela não saber se os outros mentem, ou apenas não dizem que discordam, há coisas que nunca vão mudar.
Tenho a certeza que ela vai sempre tentar subir a árvore. Sei que ela não quer morrer sem cicatrizes. E sei que as estrelas estão sempre lá. Ou melhor, vou suspeitando.

JDuraes, á tecla livre, 2013.04.22.

# A jogar às escondidas


Há alturas na vida em que as pessoas desistem. Os velhinhos, acamados, internados, no domínio da consciência de que são os últimos na cadeia de intimidade, e na certeza de que, se já foi toda a gente, serão a seguir, por exclusão de partes, de possibilidades, e de fantasias, desistem.
Os trabalhadores, empenhados, desprendidos, no domínio da noção de que o esforço não é directamente proporcional ao reconhecimento, nem indirectamente proporcional à carga fiscal, e na certeza de que, deixada ao acaso, a vida vai sempre no mesmo sentido, de mal a pior, por exclusão de possibilidades, e de fantasias, desistem.
Quem pode condenar?
Quando jogamos às escondidas e não somos encontrados, há sempre um momento em que ponderamos, se estaremos mesmo bem escondidos, e se somos mesmo eficientes nas escolhas que fizemos, ou, se pelo contrário, já ninguém nos procura e o jogo terminou, e até já estarão a jogar outro jogo, ou pior, se ninguém se lembra que também estávamos a jogar, deixando, simplesmente, de nos procurar.
E quem é capaz de condenar?
Se fazemos este juízo enquanto crianças, sem certas estruturas cognitivas, será estranho fazê-lo enquanto adultos?
Desistir é tão relativo como existir. Percebe-se melhor em grego.
Mas para já, vamos pensando apenas em esconder-nos o melhor que sabemos, não vá o jogo continuar, e estarmos a ganhar.

Jduraes, à tecla livre, 2013.06.25

# gps


Conduzo, de Oliveira de Azeméis, rumo a S. João, sem navegador. Mas não sei o caminho.
Da primeira vez fui lá guiada. Não me lembro de nada. De segunda, segui as orientações, com os olhos e o pensamento presos ao medo de navegar. Com o habito, fui lá ter e não sei como. Sei que o percurso vai se fazendo, sem medos, mas à cautela. Curva a curva tomo posição.
Assim é perante a vida, não admito nem permito que o medo de navegar me impeça de ir andando. Não deixo que o desconhecido, me faça refém do passado. Não sei o caminho, nem tenho mapa.
Curva a curva, tomo posição.

Jduraes à tecla livre, 2013.07.05

# o homem que pede na ponte


O homem que pede na ponte, não tem nada a perder. Não tem nada. Não tem dramas, não tem carro, não tem horário. O homem que pede na ponte faz amigos todos os dias, e não conhece nenhum. Abençoa quem vai me quem passa a troco de um aceno, de cinquenta cêntimos que valem um sorriso, de um cigarro que vale tudo de bom que há no mundo.
Quem por ele passa sente a boa vontade, presente no olhar de uma criança que não sabe o que é ser engenheiro, que não sabe o que são filtros e óleo, que não sabe o que é uma declaração rectificativa. O homem que pede na ponte sabe o que mais ninguém sabe.
Quem já perdeu tudo, ganha liberdade. Nunca se perde tudo. Quando o caminho se apaga, cada árvore é um sinal. Há sempre caminho.
Quando passo pelo homem que pede na ponte, dou-lhe cinquenta cêntimos, ou aceno. Para ele é igual. Trata-me por cara amiga, e o dia corre-me bem.
Ele tem tantas mais limitações que eu, e é tão mais feliz, porque não espera nada da vida. Trata bem quem o trata bem, e tudo mais lhe é indiferente.
Para ele hoje é sempre o dia. Para mim é um dia, porque presumo sempre que há mais.
Hoje passei por lá e não o vi, senti a falta da sua presença auspiciosa, e acusei uma certa preocupação. Não sei porquê. O homem que pede na ponte não tem nome para mim, não sei onde mora, se mora, não tem essência, só existência. Talvez seja ao contrário de deus.
O nada que ele é nunca vai e nunca passa. E nós?

Jduraes, á tecla livre, 2013.08.06.

#



Fecho os olhos, e ainda assim parece que vejo turvas as memórias prospectivas de uma agenda atribulada e de um telefone com a teimosia de um farol. Deve ser a alma.
Vozes do que não disse, sons do que não ouvi, ecos do que ainda está para acontecer, me deixam enternecida com o termos em nós isto tudo.
Disse-me um dia alguém, a quem devo parte do que sou, e a quem tenho pena de não poder chamar família: "filha, a cabeça nunca pára."
Mas o corpo pára.
O sol levanta-se cedo demais para o que fazemos com um dia inteiro. Ouço e calo, enfrento e desgasto, espero dar a volta ao vento antes que os cabos se partam, deito-me sem voz, como se não fosse dizer nada. O alento de amanhã ser outro dia, deve ser a alma.

Boa noite,
Jduraes, à tecla livre 2013.10.17.

# a outra esquerda



Aos que ouvem. Aos que compreendem sem questionar. Aos que respeitam.

Li um dia que a esfera de liberdade de um ser termina quando começa a de outro. Diria que existe uma relação de proporcionalidade inversa. Há sentimentos que funcionam ao contrário, como que numa relação simbiótica de mais com mais dá mais, porque apenas se somam e se multiplicam. Outros quantos se dividem, numa óptica de partilha sinergética. Escusado seria perder tempo com exemplos, pois os nossos olhares já todos se desviaram para baixo, e todos sabemos do que falamos.

A vida não é tão linear que o tempo possa não ser curvo, que haja só quatro cardinais, ou que a direita e a esquerda, não sejam, em qualquer contexto, as duas metades mais próximas de uma mesma esfera.

Porquê pensá-la assim?

Perdemos o espanto quando deixamos de ter direitos, e passamos a ter responsabilidades. Quando nos davam, e agora nos tiram. Quando queríamos chegar aos 18, e agora não queremos passar dos 30. 8 horas são 8 horas. Esteja o mundo todo errado, mas há sempre alguém com mais paciência. Hoje não encontro ninguém.

Não tivesse o polo norte magnético um desvio de 9 graus em relação ao geográfico, não sobrassem 6 horas em cada ano, não fossem 3/3 uma dízima infinita periódica de 0,(9), em vez da convencional unidade, eu diria que os homens estão errados, que a tecnologia maior está na natureza, e que em vez de as leis servirem os homens, são os homens que servem as leis.

Com uma réstia de liberdade, que não esbarra com ninguém, rio-me com um espanto quebrado, e a malícia singela de quem sente o que pensa, como aos 6 anos, quando me engano no trânsito, e alguém me adverte: " não, a outra esquerda!"

Obrigada.

Jduraes à tecla livre, 2013.09.23

quinta-feira, 9 de maio de 2013

# 2013

2013 é o primeiro ano, desde 1987, que tem os 4 dígitos diferentes. 
É o primeiro ano em que não sinto qualquer ansiedade na mudança. Eu já vi décadas, séculos e milénios. Vivemos todos. Plural. Eu vi dois papas e vários fins do mundo. A minha geração teve todos os privilégios. Nascemos na liberdade e na democracia, e não soubemos o que é a fome. Não agradecemos nada.
Somos exímios na arte de não sair da cepa torta, que até está na moda... Mas vejamos,
Aos 18 eu pensava que aos 23 estaria rica e que a vida seria fácil. Aos 23 pensava que o que custa são os primeiros 5 anos, e que o resto seria fácil. 7 anos depois penso que depois de passar a tempestade, será tudo mais fácil.
E se olhar o passado, vejo que estou bem diferente, conformei-me com a mudança e a inadaptação, por mais paradoxal que isto possa parecer.
Percebo que se fazemos em grande escala, erramos em grande escala, pois um 0 e um 1 têm significados diferentes.
Disse-me uma vez um amigo que na vida, tudo é física e matemática.
O 0 e o 1 são para me centrar no que faço, pois isso será o que daqui a outros 5 anos me dirá quem sou eu. 23 é o meu número da sorte.
Ninguém disse que era fácil, mas este ano, sempre temos 4 dígitos diferentes.
Será em si um bom presságio? Se não for, vamos andando.

JDuraes, à tecla livre, 2013.

Observar, ouvir, iluminar



Voltamos ao mesmo, comigo a começar os textos com frases curtas. Hoje não é excepção.
Quanto mais aprendo sobre pessoas, mais me parece que efectivamente fazemos todos parte do retrato médio, estudo que, juntando milhares de rostos de todo mundo, conclui que, apesar dos fenótipos diferenciados, somos todos muito parecidos, à escala da humanidade.
E somos mesmo.
Somos todos massa. Somos todos matéria. Somos todos cúmplices e vitimas de uma teia de conceitos, categorizações e sentidos, que nos aproximam e nos facilitam a comunicação.
O que nos distingue é o conhecimento. Quanto mais conheçemos dessas " realidades", mais facilidade temos em comunicar, mais versáteis e mutáveis somos.
E jeito de conclusão:
Quanto mais compreendemos, mais compreensivos somos.
E vice-versa.
Ninguém disse que a empatia era fácil de compreender, mas, felizmente...
...o sol é pontual todos os dias.

JDuraes, à tecla livre, 22 fev 2013.

2-0 top of the world



Acordamos de manhã, como à hora que seja, envolvidos no nosso espírito chora-que-logo-bebense, de quem nunca há de passar o muro (*), de quem se lamenta, sem que tenha noção de se o objectivo é não se esforçar, ou não sentir o fracasso, no caso de o esforço não ser suficiente. Sempre dói menos difamar o sistema, injuriar o caracter e a dedicação, ofender a falta de valores e a degradação de gerações, dar á coragem um valor manifestamente diminuto, furtar-nos à pequenez da exposição e considerar criminoso que os outros assim não entendam. Pois é, mas às vezes corre mais de feição.
Tanto que a glória já não é do sistema, o perfeccionismo de quem pensou em tudo antes e a excelência de ter feito a escolha certa, mesmo antes de saber qual seria o resultado, enchem-nos a alma como deuses, exóticos e tecnológicos, de um paganismo tão soberbo, que é difícil de acreditar que os outros, ainda assim, não percebam. Enche-nos o espírito de vozes, aplausos e ecos. O ego, é conduzido sob escolta, por avenidas de prestígio e reconhecimento, caminhando em marcha lenta sobre a longa passadeira da distinção, e acolhido com a solenidade e a franqueza do dever cumprido.
Já não existe esforço que pudesse ter sido feito, rasura ou derrame sobre a página, alba e brilhante, desenhada a muito custo com a perfeição habitual de quem é dotado e exímio na arte de pensar que sabe o que está a fazer. Não existe palavra em contrário que não seja um atentado bárbaro contra a consideração da competência, honrada e banal, de quem não viu outro caminho, senão o que seguiu, pois sabe que não existe.
Do atalho enamorado desse lugar, sai uma voz murmurante que diz: desce cá abaixo. Espera pelo recurso.

Lembrei-me foi do nome



Tenho escrito linhas a fio sobre pessoas que me inspiram, sem que ninguém dê por ela. Tenho escrito malhas do dia a dia, do futuro, e de um presente, que não existe ainda. Tenho aceitado o futuro como um desafio, ganho todos os dias do meu passado. Sem que ninguém dê por ela.
Sempre que penso no tempo, e tenho medo, penso que o tempo passa na mesma. Ou passamos por ele.
Passamos pelo tempo, como pelas placas da auto-estrada. Na nossa rude percepção, elas vêm em sentido contràrio. Movem-se tão rápido quanto nos movemos, mas em sentido contràrio. Quanto maior a velocidade, menor a visão que temos delas. Quanto menos as vemos, menos controlamos os destinos, mais nos controla o infinito.
Quanto mais nos controla o infinito, mais livres nos sentimos, mais adrenalina, conquista, paixão... Mais depressa as placas correm em sentido contràrio.
Lembrei-me foi do nome, mas ainda sinto.
Sem que ninguém dê por ela, as placas, vejo-as em sentido contràrio. Mas ignora-nos o infinito.

Jduraes, à tecla livre, 2013.03.08.

O motociclo, a importância do grão de bico, e a necessidade de credenciar o utilizador antes de entrar no sistema…



Hoje, e valesse a pena “ir á missa” mais uma vez, como se não houvesse pressões, voltei a percorrer a Avenida da Conduta, como se fosse o Circuito da Boavista, como se o meu carro fosse uma moto, e como se a liberdade fosse o bem mais protegido da minha vida.
Tudo errado.
O que eu deveria ter feito, seria percorrer o circuito da minha vida, como se a liberdade fosse uma avenida, e a conduta fosse o bem mais protegido da minha vida, já que vou na condução efectiva de um carro.
Mas qual é o drama?
Fosse eu mais feliz em certas circunstâncias, apenas me permitiria reparar que a “única” desvantagem de uma moto, para além de não reter a chuva acima dos nossos ombros, é o facto de nos dotar de uma consciência de invencibilidade, de imortalidade e de poder, que extrai de das nossas almas a vontade inata de superar o desafio que reside dentro de nós.
Ser uma sombra que voa, uma miragem do perfeito, é atraente, gera grandes feitos, vaidades, auto-estima, motivação, mas gera também grandes desperdícios de energia, de visão útil, e, não raros os casos, um prejuízo irreparável, no modo de estar e de encarar a realidade.
Nas profissões, como nas emoções, por vezes é necessário encostar a moto, para combater e controlar o excesso de confiança, de excentricidade, de fundamentalismo utópico, que, esse sim, não nos leva a lado nenhum.
Quando circulo de carro, quero ir a algum lado, de moto não. Não quero ir a lado nenhum. Só quero percorrer o caminho.
Disseram-me um dia destes que apesar de alguém não gostar de algum alimento, como o grão de bico, ou qualquer outro, isso não me impede de o cozinhar, e de o servir. A mim não me vai matar, nem importunar, mas faz o outro feliz.
Vou pousar a moto, e percorrer o caminho a pé.
Quanto ao resto, é preciso.
JDuraes, à tecla livre, 2013.03.13.

Concentração, dispersão, abstração, distração



Há dias em que de manhã, não temos nada a perder á tarde ou sequer a temer à noite. Há dias em que de madrugada, o por do sol nos parece igual todos os dias. Há dias em que queremos fazer e não podemos mais. Há dias em que queremos mais e não podemos fazer. 
Dias há em que o pensamento todo converge. Em que o mundo não existe. Em que nós próprios nos perdemos girando em torno daquilo que pensamos ser o centro da nossa vida. Reunir num centro. Fazer convergir. Condensar. Aplicar num só objecto (a imaginação ou algum sentimento). Não dar expansão a. Dissimular. Evitar que se perceba.
Logo, todos os restantes pensamentos dispersam, sem habilidade ou tecnologia que os mantenha íntegros ou presentes sequer. Falta de atenção. Irreflexão. Esquecimento. Concentração de espírito. Desvio de valores.
Brinco com o dicionário, em vez do meu pensamento livre, pelo mesmo motivo que tenho uma caravana. Não podemos ter um barco, mas por vezes precisamos de sentir os pés longe do chão.
O maior poder que temos não reside em conhecer, reside em não ter nada a perder.
JDuraes, à tecla livre, 2013.03.16.

# Money won is twice as sweet as money earned * - versão final



Há, pois claro, diversas formas de ganhar. Nao obstante os sábios mestres, com a maturidade e a constância com que a idade adulta os privilegia, serem da opinião geral de que mais vale um mau acordo do que uma boa demanda, a verdade, é que nem sempre é bem assim. De outras máximas, que nao confirmo nem desminto, que falam do amor e da guerra, de quem desespera e de quem sempre alcança, não consigo excluir a hipótese de a acção ser mesmo a direction, que nos leva ao place onde queremos chegar.
Isto, e se as hà de máximas, também as há de mínimas.
Eu ainda sou do tempo em que as bandas valorizavam os maus guitarristas, porque tinham boas "pedaleiras". Se há quem prefira um pássaro na mão, a qualquer custo, também certamente quem aprecie dois pássaros a voar, e vê-los de vez em quando. Livres. Nada contra. Até o chão é incerto, o que nos leva a cr que os caminhos não o sejam?
No matter what, desengane-se quem pensa que os revolucionários são quem faz as revoluções, são sim, quem consegue aperceber-se a tempo de que o poder está espalhado nas ruas, e conseguem apanhá-lo.**
Hoje o meu pensamento criativo está perdido, esgotado, já nao sei dele há mais de um mês. Talvez regresse numa manhã de nevoeiro.
O point é que nada desta crónica fui eu que pensei.
Porque aquilo que conquistamos é duas vezes mais doce do que aquilo que ganhamos.


*(Paul Newman as Fast Eddie in The Color of Money”)
** (Hanna Arendt)

Jurares á tecla livre, 2013.03.28.

# Tenho feito os possíveis para não encontrar motivos para andar mal disposta.

Tenho feito os possíveis para não encontrar motivos para andar mal disposta.
Ouvi esta frase, derivada apenas no género, de um Colega de profissão, que sabia da vida mais 1000 vezes do que eu achava que sabia, e mais um milhão de vezes do que eu sabia mesmo...
A elegância com que diz que não está bem nem mal, com que não da explicações, se estiver mal, ou provoca invejas se estiver bem, deixa-me positivamente abismada.
Dos que me conhecem, sabem que lido muito bem com o fracasso, a miséria, a falta de caracter e de humanidade, de motivação, de dinheiro, ou de descanso. Tudo bem se já não sei o que é o "PLAY hard", porque uma vida de sacrifício e dedicação a coisa nenhuma que o valha, são o meu estandarte motivacional, estandarte esse que me há de tapar o frio se for preciso. Lido bem contudo isto,
Mas é preciso bastante esforço, e podem acreditar,
Que todos os dias,
Tenho feito os possíveis para não encontrar motivos, para andar maldisposta.
JDuraes, à tecla livre.

A Lei de Lavoisier



Começar o dia em boa companhia, mesmo que seja de noite. Andar de sandálias em Janeiro, acordar as 11:11 e pedir um desejo. Vivo do agora. 

Ver depois do que vai, aquilo que fica. Fica sempre algo. Do que começamos, o que podemos ainda fazer. Podemos sempre mais. Tudo o que existe já estava a nossa volta, seja o troco do pão, seja o raspanete da mãe, seja eu pensar numa cor quenão existe. Nada se cria. Do barco que vi passar ficou a brisa, ficou a memória. Do lume que acendi, ficou a brasa, cinza, carbono, grafite ou diamante. Nada se perde. Do brilho que vi no gelo há muitos anos, ficou a àgua, que cai quando é inverno, todos os anos. Dizem os cientistas que o tempo é curvo, e se o tempo é curvo, não há nada que seja recto, direito, normativo, normal. Tudo se transforma.
Neste mar de letras sem sentido aparente, mas com um sentido que paira á minha volta nos vestígios das pessoas que me inspiram, penso que se Lavoisier se tivesse dedicado às ciências sociais, teria tido bem mais sucesso.
JDuraes, à tecla livre, 2013.01.14

# 8 ou 80 - versão final



Nada desaparece por acaso. Absorvida pela paz da possibilidade iminente de ter 3 dias calmos, um julgamento não muito complexo e, finalmente, as desejadas "ferias", leia-se dias sem prazos, em que vou trabalhar intermitentemente, convencendo-me de que o meu cérebro vai poder folgar da gélida tensão muscular, gerada pela pressão do mês a mês. Alias, o meu cérebro parece uma sala de frio. Pressao atmosférica irregular. Ou entras e sais rapidamente e com competência. Com organização e rigor para nao tocar em nada que nao seja o que precisas. Ou corres o risco de ficar fechado lá dentro. Whatever.
Foram 2 dias de caos instalado e ainda suspeito que haverá um terceiro apocalipse antes do fim de semana, também esse preenchido, como um dia "útil". Para mim, todos os dias são úteis, no matter what.
A verdade é que na minha vida nunca nada foi constante. Eu própria procurei e persigo essa inconstância. Tudo segue. É uma questão de tempo. Todos vão embora. É uma questão de tempo.
No trabalho percorri o caminho da incerteza, que me agrada, da roleta russa, que me motiva, do 8 ou 80, que vejo como saltar o muro do garantido-nada-de-especial.
Intriga-me e apaixona-me o que nao me é dado a conhecer.
Adoro e tenho presente que "marés de sorte" são apenas reconhecimento do meu esforço, ou pelo menos de uma perrilhice desmesurada, que me trouxe, pelo menos, até aqui. E hoje estou muito feliz. Não minto.
Estou no top outra vez, mas é por pouco.
Racionalmente, a diferença entre 8 e 80, é nula. É apenas um zero.
É só dar-me tempo.

Jurares, à tecla livre, 2013.03.20.

# Testemunha



Ele não tinha feito nada de mal. Ia simplesmente pela rua. Calado, mãos nos bolsos, nada lhe podia atrapalhar ou prender o campo visual. Não havia publicidade que não conhecesse, incógnitas geográficas, nada.
Absorvido pelas suas fantasias sociais, pensava em quantas oportunidades teria na vida de aparecer na televisão num canal privado, de enriquecer por negligência ou qualquer outra coisa daquelas que só acontecem aos outros.
Como todos os dias: café e jornal. E teve de folhear desinteressadamente todo o objecto até que os seus olhos se prendessem em algo suficientemente importante. Crianças que morrem não são importantes, empresas que fecham não estimulam o cérebro. Mas o que vira sim:

PRECISA-SE

PRESENCIADOR DE HOMICÍDIOS.
Sério e imparcial.
Para testemunha em futuros litígios.
Marcar entrevista.

  
E o jornal até era sério! Das duas, uma: ou o crime organizado tinha um protagonismo fora do comum na actividade marginal do país, ou o brincalhão cósmico tinha descido do espaço, ou alguém era míope, ou louco... só podia ser do café.
Convencido de que os seus olhos tinham visto mal, fechou o jornal... e esqueceu.
Mas realmente... nunca tinha presenciado nenhum. E pensou nisso durante muito tempo.
Como seria não precisar de investigar, de reconstituir o crime? Como será ter a noção de que a verdade é inata?
De facto, tudo seria mais fácil assim.
E enquanto retomava o seu caminho habitual de incursões filosóficas até casa, pensava na sensação de dizer “eu vi!”. Nunca respondeu ao anúncio.
Uns dias depois o seu cérebro continuava amordaçado. Ânsia de verdade, de sanidade, de descanso. Imaginava como seria presenciar um atentado, um homicídio verdadeiro. Daqueles que acontecem nas velhas mansões, cheias de velas e fantasmas, e cujos donos aparecem sempre de roupão. Quase conseguia vê-lo por entre os candelabros da mesa da sala de jantar. Era velho, magro... e a julgar pelo vinho de reserva que tinha em cima da mesa, devia ter uma fortuna incalculável.
Já não sorria porque a idade e a solidão não lhe permitiam.
Claro que tinha herdeiros, poucos mas tinha. E daqueles que espreitam atrás das árvores em cada esquina em que passamos de carro.
Como das outras vezes, o velho retira-se por momentos, apenas para procurar o relógio de bolso que certamente deixara numa outra divisão. É então que, através da cortina que me esconde, consigo ver a sombra de uma mão, não uma mão, que verte na bebida do velho algumas gotas de um químico que eu deduzo ser clorofórmio. Não há crimes sem clorofórmio.
E claro, o resto é inevitável. O velho adormece... e acorda morto com a cabeça pousada na mesa em cima das mãos. Eu estou escondido atrás da cortina, com a feliz sensação de que quando a polícia chegar (também não há crimes sem polícia), EU SEI TUDO O QUE SE PASSOU!
E nisto tocam violentamente á porta. Nada que eu não tivesse já previsto, entra a brigada de homicídios pela sala dentro, aquelas fitas amarelas que dizem “keep out”, e todo o meu sonho se realiza. Eu sei TUDO o que se passou naquela sala. Eles não.
Estou contente. Atrás da cortina esboço um sorriso de felicidade. Alguém diz “Alto!”. E depois tudo se desenrola naturalmente... eu vou preso, sou interrogado, vou a tribunal. Tudo normal.
Matar? Eu? Eu não o matei! Estava atrás da cortina! Não, não vi quem foi, mas podem confirmar, não tenho vestígios de clorofórmio comigo! Como sabia eu do clorofórmio? EU ESTAVA ATRÁS DA CORTINA! Á ESPERA DE PRESENCIAR UM HOMICÍDIO! SÓ ISSO!

Bem, conta-se que 6 anos depois, e ainda em liberdade condicional, pôde finalmente tomar o seu café no sítio do costume. Erguendo o jornal, teve pela primeira vez a consciência de que nunca devia ter colocado aquele anúncio.
Se fosse hoje, talvez escrevesse:

PRECISA-SE

PRESENCIADOR DE HOMICÍDIOS.
Com conhecimentos na polícia.
Que trabalhe ao domicílio.
Turnos de 24 horas.


  
Ou talvez hoje nunca colocasse um anúncio. Talvez preferisse aparecer na televisão... ou talvez achasse que determinadas coisas realmente só acontecem aos outros.
Nunca foi encontrado o verdadeiro homicida, e crê-se até que nunca tenha existido. Nada acontece por acaso, mas é um facto: o clorofórmio existe.
Há rumores de que anos depois, os investigadores encontraram, num pequeno cemitério perdido no meio de um monte uma campa sem nome que dizia:


Aqui jaz um homem de convicções... 
corajoso, psicopata, homicida, mentiroso, 
esquisofrénico e, acima de tudo... Um bom amigo.

Feliz por realizar um sonho teu: PAI










# Eu tinha tudo



Eu tenho tudo. Não há ninguém que seja mais feliz do que eu, porque eu tenho tudo. Sempre tive. Lutei toda a minha vida para que tivesse um dia algo de meu. Muito de meu. E tenho. Não há nada que eu deseje e não possa ter, que eu queira e não esteja ao meu alcance... nada. E isso faz-me feliz. Todos me adoram, o meu património é consideravelmente imperial. Tenho animais de estimação, criados, mulher, filhos... e se tentar pensar em algo que me faça falta... não, eu sou emocionalmente estável... a minha mulher deixa de trabalhar para dar assistência á família, está sempre em casa. Eu trabalho pouco porque sou o chefe. Os meus filhos adoram-me primeiro porque lhes dou tudo, e segundo porque como nenhum chefe me explora, não sou frustrado e nunca lhes bato... enfim, a minha vida é perfeita.Eu tenho mesmo tudo.
Às vezes pergunto a mim mesmo até onde irá tanta perfeição... não acredito que dure para sempre, mas sinceramente, com a sorte que eu tenho não vejo a possibilidade de tudo mudar de um dia para o outro. Há pessoas assim... umas nascem para padecer, outras para aprenderem com o sofrimento da humanidade. É o meu caso, acho.
Perguntam-me se não me sinto mal por ser assim altivo e soberbo... claro que não! Antes soberbo do que infeliz! Já não bastavam os pobres a lamentarem-se de todo o mal que lhes acontece, ainda havia o resto do mundo de lamentar-se com eles... se ao menos isso os fizesse felizes..., agora assim... é perda de tempo. Eles até gostam de alguém que lhes lembre que a felicidade não é um mito, que até existe gente que tem telemóveis, (se bem que nos dias de hoje se arranja mais facilmente telemóveis do que comida) e que não é só nos filmes que as pessoas ganham dinheiro sem trabalhar. A sério, acredito que eles gostam. De outra forma ficariam desmotivados.
E claro que o resto do mundo agradece a motivação. Se os que trabalham deixassem de o fazer, os que ganham sem trabalhar deixariam de ter rendimentos ou, o que ainda é pior, teriam de produzir eles próprios. É por isso que eu digo sempre: “Deixem trabalhar os pobres, que eles precisam mais do que nós.” É certo, não é?
Acusem-me do que quiserem, mas de avarento não. Muito menos de invejoso. Se eu não preciso de trabalhar, para quê impedir os que precisam realmente? Não é que eu não veja beleza no acto de trabalhar... simplesmente para mim o trabalho é como uma obra de arte, como uma tela... deve ser observado, mas a uma distância não inferior a 20 centímetros. E é o que tento fazer. Observo-o, mas de longe, para que não perca a magia.
Claro que nem toda a gente compreende esta minha postura. Mas a satisfação que me proporciona dizer-lhes que, quer queiram ou não, as suas opiniões em nada interferem na minha capacidade natural para lhes ser superior, torna-me imune a provocações. Mando nelas, ponto para mim.
Tenho até pensado em deixar de ouvir opiniões... não combinam com a vida descontraída que levo, nem com o meu carro desportivo, e muito menos com o meu fato semi-prateado que, modéstia a parte, me fica até muito bem. As únicas opiniões que me agrada ouvir são as minhas próprias, que em nada me incomodam. Eu e elas estamos sempre de acordo. Sou estável.
Quando me pedem que me descreva em adjectivos, entre os muitos que me vêem á mente (porque eu sou realmente muito rico em todos os aspectos), nunca deixo de referir: ocioso, presidente e respeitado. Não, não sou nenhum aristocrata, mas as pessoas costumam respeitar-me.
Não havia cargo mais alto, por isso tive de contentar-me com o de presidente... Não penso perdê-lo. Pelo menos enquanto não criar um ainda superior, só para mim. Quanto á minha versátil ociosidade nada preciso de dizer... sei de onde ela vem e em que a posso empregar. Isso basta-me e faz-me feliz.
E só eu sei como é bom deixar de respeitar este ou aquele, que me olha com cara de “Sim, Senhor Dr.”... e poder fazê-lo com a legitimidade de um ser superior (que sou na realidade). É reconfortante saber que o mundo baixa a cabeça a uma palavra nossa. De que mais preciso? Eu sei que me estou a tornar um tirano, mas que me importa, se isso em nada afecta a minha riqueza, ou a capacidade de chefiar? Para que preciso de convencer quando posso subornar? De pedir, se basta querer? Se a vida fosse um jogo colectivo eu estaria na equipa vencedora, certamente. E para quê mudar isso?
É claro que acordo muitas vezes a pensar como seria se o mundo acabasse e eu estivesse sozinho no meu descapotável a tentar telefonar ao meu assistente de imagem...
Mas isso, só acontece aos outros.

JDurães, à tecla livre, 2002.

# Sábado à noite, o problema e o Atlântico



Hoje, e não antes nem depois, mas a meio da boémia de sábado à noite, que no caso, começou mais cedo que o normal e, não obstante a excelente companhia, termina também mais cedo que o normal, surgem-nos aqui uns pensamentos aleatórios, que convém afinar, com medo que a alma não descanse. Ou não adormeça. Ou permaneça logicamente, descoordenada.
Muitas vezes pensamos sobre a chave do sucesso. Esta crónica, que diz que é à tecla livre, e é mesmo, não é mais que um desabafo fundamentado sobre motivação, coragem, esgravatar e, sem excepção, é inspirada por diálogos e pessoas reais, que sabem o que disseram, e não se responsabilizam por nada que possamos escrever com base nisso. Assim foi hoje também.
Damos por nós aqui a pensar que há muitas chaves para o sucesso. Mas existe uma chave mestra. Consiste unicamente em não fazer nada estúpido.
Ou seja: problema.
O José e a Maria arrufaram-se de tal forma que o José disse o que nao devia, a Maria reagiu, disse o que ninguém devia. Dispararam-se um para cada lado, e eis que o José, antes mesmo de se deitar, blasfemando da sua sorte, como da vida, remove a Maria da sua rede social, não sem antes benzer com desabafos de delicadeza negativa, contra e a respeito do objecto da sua fúria, o seu espaço público na rede. E o nome da Maria em todos eles. Aparentemente, Maria removida. Nota mental. Ora, coisa simples, a prima ainda estava acordada, e não havia sido removida.
Todos percebemos o fim desta história, o problema, o something stupid, e o porquê que aquilo que seria uma história de amor imperfeita e saudável, nunca o chegou a ser.
Não, não foi a prima. Foi a retaliação provocada pelos actos praticados À MARGEM do problema. O arrufo passava. A frase deveria ter terminado em "dispararam-se um para cada lado". Tudo o resto, e não releva a história fictícia, ou a quantidade de coisas estúpidas que um ser humano pode fazer, era desnecessário e controlável.
Novamente: problema.
Sugerimos DELIMITAR o problema, traçar um circulo de giz imaginário à volta do problema se necessário, e avaliar as consequências possíveis do problema em si, sem ninguém lhe tocar.
Depois agir preferencialmente só dentro desse circulo, e com giz de outra cor, sem riscar sobre o branco, não vá, ainda assim, o dito conseguir expandir-se. Convém ter atenção ao ESTADO do problema, sendo a volatilidade e a ebulição, conceitos importantes a ter em conta. Se o problema não apresentar alterações significativas de forma em 24 horas, o procedimento recomendado será observar novamente o interior do círculo. Por precaução.
Normalmente sabemos quando estamos prestes a fazer esse qualquer coisa. E vale-nos a determinação, se tudo o resto falhar, ou estiver em zero absoluto..
Agora sim, com a alma mais liberta para o habitual delírio de querer mais amanhã, sem querer fazer nada estúpido, premeditamos mudar-nos para os terraços do Atlântico, sem garantir no entanto que seja hoje, entretanto, algum dia, ou sequer, que seja deste lado do Atlântico...

JDuraes á tecla livre, 2013.05.05

# O dia da mãe



O dia da Mãe, historicamente, era comemorado no dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição. E não seria esta uma Nossa Senhora qualquer, houvesse várias, seria aquela da Conceição, da concepção, aquela que concebe.
Ora depois surge o dia do Pai, ao jeito de dia civil, por uma questão de paridade, e o legislador volta a fazer das suas. Abrigado na sombra do laico, concordatado e católico, que apenas garante que o poder religioso, o político e o judicial não se atropelam por causa de dogmas, eis que transpõe o dia da Mãe, de forma isenta e "civil", para Maio, mês de Maria, Mãe de Jesus, e diz-se que também do coração. De Maio inteiro escolhemos o Domingo, e talvez não seja má ideia gozar o dia, ao jeito civil de um gelado no shopping.

Malhas que o império tece. *
Vontades, e intenções, eu só sei da minha.


JDuraes à tecla livre, 2013.05.05.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


Há uma linha que separa…

Há uma linha que separa uma tempestade no mar e um furo no casco. Tenho co
nversado com pessoas de todas as idades e feitios (gráficos e comportamentais), e chego à conclusão de que cada um acha, não só que a culpa é sua, por tudo de mal que acontece neste país, mas que é um caso isolado. Não somos.
Uns lamentam-se de lhes ter batido á porta o desemprego, com a indignação de quem recebe um comercial de telecomunicações fora de horas, argumentando que há muito que o seu nome não constava das páginas brancas. Mas afinal estava lá. Outros porque não têm férias há mil-e-não-sei-quantos dias, outros porque que não têm contratos há mil-e-não-sei-quantos dias, e outros que não sabem o que é receber há mil-e-não-sei-quantos dias, mesmo tendo trabalhado esses mil-e-não-sei-quantos dias.
Outros há, que gostariam de empreender e inovar, mas têm medo. Outros que gostariam de fazer greve, mas têm medo. Outros que têm medo de querer empreender e inovar, e que alguém faça greve. E outros ainda que fazem greve… porque não têm as condições ideais. E apenas por isso.
Depois existe o único tripulante do barco que todos os dias acorda de manhã e trabalha. Faz o seu trabalho o melhor que sabe, e toda a gente lhe diz que está muito bem feito. Não se queixa pois sabe que ninguém o vai compreender, nem ninguém o vai ajudar. Não faz nada arriscado, para que não o gozem. Não muda nada porque acredita que amanhã virão dias melhores, mas começa a perder a noção entre uma tempestade no mar e um furo no casco. Tempestade por tempestade, conforma-se aos poucos com os aumentos de tudo, dos impostos, das contribuições, da comida, da gasolina, da inflexibilidade, da insegurança, da exploração. Ninguém o teme. Cada vez tem menos tempo para limpar o convés, para segurar o leme, que fica cada vez mais pesado. Todos os dias se sente mais fraco e com mais dificuldade para içar as velas, rezando apenas para que quando elas estiverem abertas, o vento sopre de feição.
Há uma linha que separa o achar que se está no limite do esforço, e o estar no limite do esforço. Mas tenho a certeza que nada mais é uma linha, do que uma junção entre dois pontos.
Qualquer um diria demito-me. Eu desisto, contratem-me.
 


JDuraes, à tecla livre. 2012.11.13

sábado, 3 de novembro de 2012

O custo-benefício do trabalho e de outros luxos da vida…


Palavra de honra que há dias em que me apetece abandonar o mundo encantado dos executivos, fechar as portas a este escritório que sabe tudo sobre mim, vender o carro de serviço... e investir todo o meu dinheiro em material fotográfico e numa Vespa PX 125.


Não fosse eu das pessoas mais determinadas que eu própria conheço, e não soubesse que neste momento a felicidade se resume a isso, apenas por estar cansada... já teria acontecido há muito tempo.


Ainda hoje conto escrever a crónica que explicará este desabafo.





Já foi ontem que ouvi um dos empresários da restauração, presentes e inteiros no parlamento, falar numa homenagem aos grandes homens que querem trabalhar, e não os deixam. Li ainda que pode existir um sist

ema financeiro mundial, em que o dinheiro não seria produzido pelos bancos, ou sequer por referência à dívida, mas livremente pelos estados, na medida do necessário. E constatei, que há malta, com estudos superiores, ballet e desportos de elite, que esgravata todos os dias, para sustentar uma data de gente, mas a si não.
É o que vejo. Nos tempos que correm, se é verdade que subiu o preço de tudo, é verdade também que subiu o preço do trabalho. Eu, e penso que umas poucas multidões também, sinto que pago hoje muito mais para trabalhar, do que paguei outrora. Ao ponto de sustentar e defender a hipótese de que a minha vida seria muito mais fácil e tranquila sem o dispêndio e o desgaste que o trabalho me dá.
Comparo as minhas duas profissões aos meus dois carros.
Um deles foi caro, demorou muito tempo a encontra-lo, a consegui-lo, mas tem a cor que eu gosto. Dá-me prazer conduzi-lo, mas sobretudo, dá-me o conforto e a segurança. E o estatuto (em sentido sociológico). Tem fecho central, consome pouco, e nunca se estragou.
O outro, desde menina que os via passar e os desejava. Sabia que um dia teria um. Foi-me quase oferecido, mas com a sua personalidade determinada, conquistou o seu lugar de tal forma, que já me corrompeu a investir nele dez vezes mais que o seu valor. Ou que a sua rentabilidade. E o único retorno que me trouxe, foi o inegável privilégio de o conduzir. A realização que só conseguimos quando nos sentimos livres.
Se tivesse que escolher entre um deles? Não ponho em hipótese escolher o que quer que seja.
O que não tem solução, não é um problema. Os problemas grandes, ficam pequenos, e desaparecem.
Não vale a pena desistir, a modos de “eu, este ano, não vou trabalhar, porque a minha condição económica não me permite”.
Acredito que uma forte determinação nos leva ao caminho que escolhemos. Acredito que, nestes momentos em que a desmotivação assola na sombra, as nossas sombras, pode parecer mais importante o consumo, e a segurança, do que o prazer de conduzir…mas,
Palavra de honra que há dias em que me apetece abandonar o mundo encantado dos executivos, fechar as portas a este escritório que sabe tudo sobre mim, vender o carro de serviço... e investir todo o meu dinheiro em material fotográfico e numa Vespa PX 125.
JD

Janelas, postigos e alçapões

Dizem que quando a vida nos fecha uma porta, nos abre de imediato uma janela. Ao longo de vários meses tenho visto fecharem-se janelas, postigos e alçapões de toda a espécie... Isso far-me-ia acreditar que num futuro próximo se abriria um portão, de tal forma grandioso que passaríamos todos por ele de mãos dadas... Mas não é isso que vai acontecer. Vamos sim procurar pés de cabra e, em cada frincha que virmos, vamos criar uma oportunidade. Os vidros só se vêm quando estão sujos, quando têm imperfeições...mas os outros também existem.
Jduraes, à tecla livre.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

The charisma, success, and a sense of belonging ...

After consulting the respective definitions in dictionaries "presents", in some futile search in the "guardianship" sciences, and some critical sense that I own, I write to you again, to the key free, about these three concepts that intrigue me.

I must say that I find quite reductionist to consider that success is only the "result of action or enterprise." This is because I do not think there is a bad success, or a negative success . The popularity, fame, media attention and reputation, have their downsides, but is, in my view, peaceful understand that something that is unsuccessful, do not have any success. So the real success will be instead the results [positive and admirable] of the action or venture, and because there is no action without subject, from someone.

Already charisma, excluding the supernatural gifts, or external recognition and prestige of one's personality, is what is fascinating about the individuality of each, what separates us, what makes us unique, and what others assume as aspects of our character that are truly ours, we will not change, because it is reliable.

We realize that.

We realize that just being ourselves, we accept all the consequences of our action, without resorting to external locus of control ((other people, luck, opportunity, or lack of them) when they don’t exist .... But anyway still waiting for that recognition comes from outside, that others are giving us the blessed pat on the back, thanks, well there by way of positive reinforcement unconscious and sincere ...

If not so, it were enough awareness to make good choices and good deeds, the joy of participating in a common goal, whatever it is, and proud to be part ... for what we are.

I believe that there is a background of indispensability in each of us. Resides in charisma.

I believe that none of us can expect to be realized, or recognized only on the basis of their existence, yet fascinating. I blame the feeling of belonging.

And I realize that knowing the price means not knowing the value, and that there is something that shows us every day, in silence, the value we have. The success.

O carisma, o sucesso, e o sentimento de pertença…


Após a consulta das respectivas definições nos dicionários “vigentes”, de alguma pesquisa fútil no âmbito das ciências “da tutela”, e de algum sentido crítico que me é próprio, escrevo-vos, novamente à tecla livre, sobre estes três conceitos que me intrigam.
Devo dizer que considero bastante reducionista considerar que o sucesso seja apenas o “resultado de acção ou empreendimento”. Isto porque não creio que exista um mau sucesso, ou um sucesso negativo. A popularidade, a fama, o mediatismo e a reputação, têm os seus lados negativos, mas será, a meu ver, pacífico entender que algo que seja mal sucedido, não possua sucesso algum. Assim o verdadeiro sucesso será antes o resultado [positivo e admirável] da acção ou empreendimento, e porque não existe acção sem sujeito, de alguém.
Já o carisma, excluindo os dons sobrenaturais, e o prestígio ou reconhecimento externo sobre a personalidade de alguém, será aquilo que é fascinante na individualidade de cada um, aquilo que nos distingue, que nos torna únicos, e que os outros assumem como sendo os aspectos do nosso carácter que são verdadeiramente nossos, que não vamos mudar, porquanto, é confiável.
Temos noção disto.
Temos noção de que só sendo nós mesmos, poderemos aceitar todas as consequências da nossa acção, sem recorrer a locus de controle externos ((as outras pessoas, a sorte, a oportunidade, ou a falta delas)quando não existem…. Mas mesmo assim continuamos à espera que o reconhecimento venha de fora, que sejam os outros a dar-nos a bendita palmadinha nas costas, o agradecimento, o bem haja, em jeito de reforço positivo inconsciente e sincero…
Se assim não fosse, bastava-nos a consciência de fazer boas escolhas e boas acções, a alegria de participar de um objectivo comum, seja ele qual for, e o orgulho de fazer parte… por aquilo que somos.
Considero que existe um fundo de imprescindibilidade em cada um de nós. Reside no carisma.
Considero que nenhum de nós pode esperar ser realizado, ou reconhecido apenas com base na sua existência, ainda que fascinante. Culpo o sentimento de pertença.
E tenho noção que saber o preço não significa saber o valor, e que existe algo que nos demonstra, todos os dias, em silêncio, o valor que temos. O sucesso.
Joana Durães, à tecla livre

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Será assim tão relevante ser Homem ou Mulher?

Será assim tão relevante ser Homem ou Mulher?
Se, por um lado, por sexo entendemos o conjunto de características físicas e funcionais que distinguem o homem da mulher, por outro, entendemos o género como o conjunto de características sociais, os papeis e estatutos, e tudo aquilo quanto nos faz ser feminino e masculino. Ser mulher ou ser homem varia assim conforme a sociedade, local e tempo em que vivemos, a cultura das nossas gentes, e como tal, pode ser construído, aprendido, e alterado. Já o sexo, sendo genético, é-nos determinado quando nascemos.
Os estereótipos de género (características e papeis que atribuímos a cada um dos sexos) determinam que mulheres e homens sejam vistos de forma diferente, quer ao nível da família, como ao nível do trabalho e da sociedade.
Homens e Mulheres nem sempre foram vistos como iguais
Desde sempre nos habituamos a que as mulheres são quem cuida dos filhos, da casa, dos doentes e dos idosos. Por sua vez os homens foram sempre vistos como os trabalhadores, que sustentam e protegem a família. O valor deste trabalho, exterior e visível, sempre teve o reconhecimento da sociedade, ao contrário do trabalho doméstico, menos visível, e muito pouco reconhecido. O poder, víamo-lo distribuído de forma pouco igualitária: o marido era o chefe da família, existia o poder marital e o poder paternal (em toda a legislação anterior a 1974), sendo que as mulheres possuíam mais deveres do que direitos.
Hoje em dia, cerca de 30 anos depois de ter sido reconhecida a plena igualdade entre os sexos, vivemos numa realidade muito diferente.
As mulheres estão no mercado de trabalho a par com os homens e contribuem em larga medida para o sustento de suas famílias. Ao mesmo tempo e de um modo geral, continuam a dar apoio à família, a providenciar a higiene e o governo do lar. Mostram-se por isso menos disponíveis para prestar trabalho suplementar, ou trabalhar longe do seu domicílio. A maternidade, apesar de não ser incapacitante na maioria dos casos, é ostensiva, e o facto de no primeiro ano, o recém-nascido ser muito dependente da mãe, faz com que muitas empresas ainda vejam na contratação de mulheres um problema.
Apesar de hoje em dia cerca de 60% dos licenciados serem mulheres, apenas 30% dos cargos de direcção ou chefia são ocupados por elas.
O paradigma está a mudar.
Li uma vez que “as mudanças estruturais não se fazem por decreto”, apesar de que a legislação sempre foi motor da mudança. Hoje em dia, já não existe já poder marital, sendo que a nossa Constituição, no seu artigo 13º, prescreve que Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.” e que “Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de […] sexo, […]condição social ou orientação sexual.” Em lugar do poder paternal, surgem hoje, no nosso Código Civil, as Responsabilidades Parentais, competindo ao Pai e à Mãe, ao mesmo nível, todos os “poderes” e “deveres” respeitantes ao sustento e educação de seus filhos, numa perspectiva de partilha e entreajuda.
O direito da família está como que a “descarregar-se” de género, e o direito do trabalho já lhe é completamente alheio.
Resta-nos contribuir que a justiça e a sociedade acompanhem esta suave evolução.
Ao nível dos Tribunais é já visível: cada vez é mais aplicado o regime de “guarda conjunta”, há cada vez mais Pais que acompanham a infância de seus filhos de forma plena. Ao nível das entidades empregadoras, há cada vez mais a convicção de que flexibilizar os horários e permitir a conciliação da vida profissional com a familiar gera competitividade.
O facto de sermos homens ou mulheres não nos distingue assim tanto afinal. Somos pessoas, nascemos todos no mesmo plano de dignidade, e assistem-nos as mesmas responsabilidades para com os outros. Será assim tão relevante ser Homem ou Mulher?

 Joana Durães
Publicado no Boletim Cultural e Informativo da Associação Moradores Das Lameiras - Ano XXIV, n.º 99, Trimestral: Jul/Ago/Set 2011 www.amlameiras.pt

Aqui é Onde Me Sinto Triste e Com Vontade de...

É uma das muitas inscrições que podemos ler numa das muitas paredes de uma das muitas casas envelhecidas da já tão envelhecida cidade do porto.

Esta fez-me pensar.

Desde a identidade do seu autor, ou autora, identificado a tinta desgastade de uma qualquer lata de spray.
Imaginei-a com 15 anos, quem sabe menos, numa daquelas noites passadas no Piolho, com os amigos, com os que pensamos que vão estar conosco para sempre quando temos essa idade.

Imaginei-a depois de ter bebido umas quantas cervejas, de ter desperdiçado umas quantas conversas, de ter sorrido, de ter chorado, de se ter sentido acompanhada pelo álcool, ou simplesmente de se ter sentido sozinha, entre incógnitos humanos...
No Piolho toda a gente ri, toda a gente faz barulho, toda a gente parece diferente, mas a massa humana que se vislumbra torna-se uniforme, única, ao olhar mais atento de quem já não faz parte da pintura.
E mesmo o "aqui é onde me sinto triste" expressa a memória do estudante cansado, do estudante perdido, ou só do estudante que perde tempo e deixa a sua juventude nas mãos de um divertimento aparente, quiado pela nostalgia dessa massa de pessoas, iguais de dia para dia, que só um lenço ou um chapéu distingue.
Agora penso porque não estará completa a inscrição. Não estará completo o pensamento?
"E com vontade de..."
De ver televisão? De conversar?, como alguém terá acrescentado numa outra cor e caligrafia, dias ou anos mais tarde...
Fala a menina ou o velho esquecido pela cidade?
Ambos tão iguais na sua solidão, dentro e fora das paredes frias do Porto.
Fazem-se canções, sente-se o Porto, mas a cidade é muito mais do que as paredes velhas que cada esquina deixa esquecer, a cada minuto que passa.
São as pessoas, o que pensão e o que sentem, que nos deixam o porto na memória.
E essas palavras estão como que tatuadas no corpo da cidade.
A muy nobre, sempre leal e invicta Cidade do porto ainda hoje expressa a sua palavra "resiste", deixada por gerações inteiras em recantos que só quem aprende a caminhar conhece.
Estes pensamentos andas soltos na cidade, escondem-se de alguns e revelam-se a outros, como qualquer pensamento normal.
Fala o povo, quem vive, quem habita, ou quem vai ao Porto só de visita. Como eu gostava de saber o resto do pensamento, o traço escondido na mente da cidade, que a tinta não deixa ver.
Fala agora a menina, hoje deve ser mulher, que já não tem vontade, mas vontades...
Hoje já não deve ter consciência, ou lembrar-se sequer, de que a cidade tem vida, de que a Cidade sente, qde que a cidade absorve as marcas e momentos de todos quantos lá passam.
Cada copo, cada pedra, cada brisa, vai compondo uma personalidade que é de toda a gente um pouco, e que já nem um lenço ou um chapéu distingue.
Nós achamos que marcamos os objectos, nem por isso...
Eles vão-se toprnando naquilo que o tempo os faz tornar.
Vão-se construindo, vivendo, sorrindo, chorando, e assim se tornam únicos, assim se distinguem, e só por isso inspiram sentimentos.
Vejo a cidade sozinha, as multidões que aparecem e desaparecem, as profissões, os animais, os restos de gente, de vida, e as histórias de cada porta...
E não consigo saber, porque é que anos de solidão e companhia, de confusão e alegria, continuam a deixar acreditar que a Cidade fala, que a cidade pensa, vive, chora, ri...
Se a menina for velhinha, rica, forte, pobre ou sozinha, ande por onde andar, não lhe resta senão a memória.
Tempos que não voltam, mas que também não vão embora...Histórias soltas que se cruzam, numa mesma história...
E a própria Cidade grita, alto e para quem quer ouvir "Aqui é onde me sinto triste, e com vontade de..."

Joana Durães

Um Segundo Mais Feliz

Todos os dias troco um dia da minha vida por uma noite de sono. Tudo o que faço é importante.Ás vezes penso que o tempo é a moeda da existência... troco 10 minutos da minha vida por uma caneca de chá e um pão com queijo, 20 por um pouco de informação, 3 por um sorriso pepsodent... ás vezes pedem-me ajuda e digo que não tenho tempo, como quem acena uma nota de mil por não ter trocado. Sou egoísta, é um facto, mas a verdade é que estou a dar parte de mim, da minha existência, por uma causa que não me pertence. E será isso justo? Claro que ninguém se importa de dar uma tarde inteira de si por um banho de mar... mas quantos o fariam espontaneamente por um ataque epiléptico? Quantos o fariam por uma expectativa?
A verdade é que, bem ou mal gerido, o nosso tempo é escasso, e cada vez nos resta menos troco. Longe vai o tempo em que, como crianças, brincávamos com moedas pequenas!, longe vai o tempo em que nada durava mais que 10 minutos, em que não se faziam projectos a longo prazo, e em que ninguém pensava no que seria quando crescesse... depois de adultos já só pensamos nas notas, e nos empreendimentos de uma vida inteira... nada nos realiza se for pequeno, nada nos atrai se for grande demais. A vida toda chega perfeitamente.
Qual é o problema? É que se algo nos falha, ficamos (geralmente na velhice) com a sensação de ter perdido o porta-moedas e, azar dos azares, com o dinheiro todo lá dentro... e como se não bastasse, na maior parte das vezes não temos já tempo para procurá-lo... e ficamos tristes. Fracassados.
Chego todos os dias á conclusão que o melhor será mesmo andar com as moedas pequenas e gasta-las á vontade, esquecendo que temos as notas... inevitavelmente veremos um dia que até as notas foram gastas, mas não todas numa coisa grande e inútil, mas em muitas pequenas coisas que fizeram a nossa felicidade ao longo da vida. O tempo corre quer queiramos, quer não. Passa, ultrapassa-nos. Não depende de nós.
Cabe-nos a escolha. Seremos todos velhos pobres e frustrados de desperdício... ou eternas crianças brincantes, para quem um copo de água é a alegria de uma tarde. Deitaremos ao vento as notas que não pesam... ou passaremos a vida a trocar pequenas moedas por grandes momentos? Cada um sabe de si.
De que vale perguntar-se o que demorará menos tempo, o que durará mais, ou o que será mais efémero? Já dizia o Poeta que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”... mas de que vale a grandeza da alma, perante a pequenez dos limites, dos sentidos, da utopia? Ao pensar em tudo isto, troco freneticamente cerca de 1 segundo por cada caracter que deposito nesta página já não tão em branco como havia sido momentos antes... terá valido a pena? Pelo menos não perdi o porta-moedas! Não agora, que ainda me julgo uma criança capaz de tudo, com a vida toda pela frente. Não agora que nada me mete medo porque nada é realmente importante. Não agora que penso ainda que o último dia nunca chegará....
Eu tenho a certeza que sou jovem enquanto me sentir imortal. E hoje sei que sou imortal.

Joana Durães


O Homem Que Vivia em Cima Do Muro

Estava sol... e se alguma vez o muro parecera sombrio e degradado, chegado ao chão, à realidade, agora cada vez mais ele se mostrava alto e vivo como a alta montanha de onde os índios vêm o mundo. E também ele se enganava a si mesmo julgando que por estar em cima do muro conseguiria ver todo o mundo e dominar tudo aquilo que os seus olhos viam... mas quão ingénuas podem ser as mentes! Aquela realidade não lhe pertencia... porquê? Em cima do muro quem pode dizer que tem algo de seu?
Cá em baixo duas realidades diferentes, uma de cada lado do muro, e só cabia ao Homem-que-vivia-em-cima-do-muro decidir qual delas seria a sua...
Naquela manhã até se sentia confiante... achava-se capaz de escolher, achava-se jovem e acreditava que tudo na vida podia esperar pela sua decisão. Para ser sincero, em cima do muro sentia-se nas nuvens... como se fosse o dono do mundo, não pensava sequer que quanto mais depressa descesse, mais depressa seria feliz.
Ninguém sabe ao certo como terá chegado ao cimo do muro mas há rumores de que em tempos o Homem-que-vivia-em-cima-do-muro teria desejado um mundo diferente do que lhe fora destinado... e tê-lo-ia feito com tanta força que lhe fora dada a oportunidade de escolher... mas isso são as vozes populares, avós dos meus avós, que vão passando adiante a história que ouviram contar, mas que nunca souberam verdade...
E de facto, a verdade ninguém sabe, sempre o conheceram em cima do muro, “Bom dia senhor Artur!” pra cá, “Boa noite, Senhor” pra lá... mas pouco mais do que isso... sabia-se que ele podia descer a qualquer altura, mas para o fazer teria de escolher um dos lados do muro e, uma vez de um lado, nunca poderia regressar ao outro. Era por isso que ano após ano ele ia ficando por lá, sentado, ora olhando a bombordo, ora a estibordo, como se o muro fosse o seu próprio navio e ele tivesse de lhe dar um rumo... pesava prós e contras, os dois mundos tinham algo que o seduzia: de um dos lados seria rei, do outro, estava sempre sol e havia uma árvore com maçãs, cuja sombra o faria feliz.
O mais difícil era mesmo decidir... sempre tinha desejado reinar, ser respeitado aclamado, conhecido... mais do que alguma vez se sentira... sonhava com o mérito, o reconhecimento. Quantas vezes não se tinha achado em cima do muro com os olhos fechados, a sorrir, imaginando o quão feliz seria se descesse do muro e reinasse.
O pior era que a sombra da macieira, a calma da primavera, e o sol a acarinhar-lhe os olhos por entre as folhas da árvore nas tardes de verão também eram parte da sua felicidade... e só o facto de pensar em abdicar de tudo isto o deprimiam... no entanto, também não se sentia capaz de desistir do seu reino... e por isso continuava em cima do muro... dia após dia.
Muitas vezes lhe perguntavam se gostaria de dar um passeio, uma vez uma criança até lhe emprestou uma bicicleta! Mas o Senhor (como então lhe chamavam) quase ia caindo abaixo do muro, pelo que resolveu nunca mais tentar. Sabia que seria feliz um dia, e isso bastava-lhe. Mas enquanto isso, fazia a sua felicidade de pensamentos e sonhava com o dia em que alguma daquelas realidades fosse a sua. Só dependia dele, mas nunca tivera realmente a noção de que o tempo passa e, com ele, tudo o que é vivo.
De vez em quando tentava pender ligeiramente para um dos lados do muro, ora debruçando-se, ora sentando-se com as pernas para um dos lados apenas, mas de cada vez que o fazia ficava aterrorizado com a ideia de perder metade do mundo que sempre vira e que, embora não fizesse parte dele fisicamente, tivera sempre como seu.
Chegara à conclusão que a sua vida era feita de situações hipotéticas: “se eu descesse”, “se eu reinasse”, “se eu pudesse passar as minhas mãos pela relva fresca”... e havia que limitar as possibilidades: se por um lado lhe parecia que havia apenas três formas de continuar (descer, descer, ou não descer)... por outro, uma infinidade de alternativas povoavam a sua mente já tão conformada com a indecisão.
Entre deixar-se cair à sorte para um dos lados do muro, e deixar-se ficar para sempre no topo da sua montanha, uma nova ideia lhe surge: já que o muro é o culpado de todo o seu tormento, porque não destrui-lo?
E assim fez... durante dias e dias escavou em linha recta, na vertical, em direcção ao solo. Na sua mente apenas a vontade de alcançar a terra firme, razão da sua existência, motor da sua actividade. Nada mais lhe importava, ciente de que alcançando o solo seria feliz sem necessidade de fazer concessões, punha toda a sua força naquilo que fazia. Destruía todas as barreiras à sua felicidade, e fazia-o com um enorme sorriso. Sonhava com a hora de tocar o chão e, quanto mais pensava nesse momento, mais chegava à conclusão de que nunca seria capaz de dar o primeiro passo em direcção a um lado... ou ao outro. Pior que tudo: perdera o seu navio, o seu oráculo, a sua torre de controlo... a sua varanda para o mundo.
Toda a sua motivação fora embora em segundos. Exausto, parou de escavar (de que lhe serviria então?). Os seus braços, vencidos pelo cansaço de dias seguidos de um esforço sobre-humano, deixaram-se cair. Sentiu-se um falhado.
Já não tinha forças nem ilusões e, de todas as vezes que desejara nunca mais acordar, esta era a que o fazia com mais convicção. Adormeceu absorto em pensamentos nostálgicos acerca de como havia sido feliz outrora, em cima do muro que, embora não fosse a morada dos seus sonhos, o fizera já bastante feliz. Nunca tinha dado valor, mas a verdade é que fora realmente feliz em cima do muro.
Era triste ver como desperdiçara a única coisa que tinha de seu, e, se alguma vez se tinha sentido incompleto lá em cima, sentia agora falta dessa imperfeição... sentia que aquilo que não podemos ter é parte da nossa motivação para prosseguir, serve para que consigamos dar valor ao alcançável.
Sabia-o agora, mas era tarde. Se ao menos tivesse pensado nisto antes... – repetia inconscientemente para si mesmo, já que o sono profundo em que se deixara abater o impedia de elaborar ele mesmo um pensamento sólido.
No ar pairava a ideia de que de nada vale ter objectivos. Para quê projectar, construir, destruir, aspirar? Porquê querer mais... porquê querer? O homem que agora dormia não tornaria a tomar decisões, por mais simples que lhe parecessem. O seu semblante vencido deixava adivinhar que nunca mais lutaria por nada, nunca mais daria um passo cuja direcção dependesse de si, da sua vontade. Não voltaria a pôr parte de si em nada do que fizesse. Sim, jamais voltaria a dar algo de si... fosse pelo que fosse... e estava certo disso.
Teve dificuldade em abrir os olhos, selados por suaves raios de sol que brincavam ás escondidas por entre as folhas da árvore mágica, dando-lhe a sensação de estar a sonhar com o paraíso... mas teve mesmo que os abrir.
Ao longe ouvia vozes que se aproximavam, vozes chegavam cada vez mais perto de si. Ouviu então uma que lhe pareceu dirigir-se-lhe:
“Sua Majestade, o projecto real espera pela sua decisão.”
Nisto fechou os olhos com muita força... e acenou afirmativamente com a cabeça.
O muro (ou o que restava dele) foi partido em pedaços e vendido como recordação aos turistas. Dizem as más-línguas que é impossível ter escavado com as próprias mãos, mas a verdade é que o objecto que usou nunca chegou a ser encontrado. Há dias em que o Sol brilha.

Joana Durães